31 outubro 2019

O colóquio

      De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 22 de dezembro de 1994

      E aqui estamos no quinto instrumento da nossa espiritualidade coletiva, que denominamos “colóquio”.
      Ele também serve muito para o progresso de nossa vida espiritual. […]
      Assim como nem sempre são suficientes nossos cuidados para manter a saúde do corpo, mas nos confiamos a especialistas, talvez para um check-up completo; assim como não basta lavar e cuidar com precaução do nosso carro para viajarmos tranquilos, mas, de vez em quando, é necessário o olho de lince do mecânico, também é bom controlar de vez em quando a caminhada de nossa alma com alguém que conhece mais do que nós a vida do espírito. […]
      Também Jesus fazia colóquios com pessoas individualmente. O Evangelho traz alguns. E foram tão importantes quanto os seus discursos para as multidões.
      Por exemplo, Ele conversou sozinho com a samaritana (cf. Jo 4,1-26), bem como conversou de noite com Nicodemos (cf. Jo 3,1-21).
      Visto que se encontrava junto a um poço e tinha sede, pediu de beber à samaritana e, na mesma circunstância, revelou-lhe a situação dela: tinha vivido com cinco homens e nenhum deles era seu marido, como também não era o que tinha naquele momento.
      Apesar disso, continuando o colóquio, Jesus fala com aquela mulher até mesmo sobre o dom de Deus, a graça, que nos faz filhos de Deus, e a ela se revela inclusive como Messias: “Sou eu, que estou falando contigo” (Jo 4,26).
      Revelações grandiosas, divinas… a uma pobre samaritana, com quem Jesus não deveria nem ter falado, segundo os costumes.
      E a Nicodemos, cuja fé e piedade conhecia, Jesus diz que quem não é gerado pelo Alto não pode ver o Reino de Deus; que, portanto, é necessário renascer da água e do Espírito por meio do batismo.
      Outra revelação altíssima referente ao Reino. O quanto Jesus amava as pessoas!
      E é justamente Dele que precisamos aprender a fazer os colóquios.
      Ele não fecha os olhos para a realidade das pessoas que tem diante de si: a samaritana pecadora; Nicodemos, homem de piedade, embora medroso. E encontra, em todos os casos, o modo de revelar a eles as grandes realidades que veio doar ao mundo.
      É assim que nós nos devemos comportar nos colóquios que fazemos com os nossos irmãos: devemos partir da situação presente deles – que viremos a conhecer se nos colocarmos na atitude apropriada (a de amá-los com todo o coração e a mente) e se estivermos totalmente vazios (como nos ensina o mistério de Jesus Abandonado) – para que o irmão possa abrir-se totalmente, esvaziando em nosso coração a enchente que às vezes tem em seu espírito, de modo que se dê início à realização, entre nós, daquele relacionamento trinitário que devemos estabelecer com ele.
      Depois, ouvindo o Espírito Santo que certamente fala em nós se tivermos amado, falamos, prontos não só a fazer voltar a paz e a serenidade ao irmão, mas a lhe revelar novamente, em seus mil matizes, o Ideal que um dia o iluminou e arrastou pelo caminho da espiritualidade coletiva.
      E como nos devemos comportar se somos nós que estamos em posição de receber?
Já está claro. Também nós devemo-nos dispor a estabelecer um relacionamento trinitário com o irmão ou a irmã, que está presente para nos ajudar. E, também nesse caso, Jesus Abandonado é mestre, Aquele que, tendo dado tudo, tornou-se o vazio.
      Mas aqui, é preciso criar o vazio em nós, doando a nossa situação espiritual com as suas lutas e as suas vitórias, os seus regressos e os seus progressos.
      E depois, colocamo-nos em atitude de ouvir, certos de que o Espírito Santo dará a sua luz a quem nos deve iluminar, e conscientes de que é sobretudo a Ele, ao Espírito Santo, que devemos a nossa gratidão se fomos ajudados, aliviados e encorajados.
      Se tudo decorrer desse modo, também aqui, como na “hora da verdade”, o resultado será uma alegria profunda: alegria pela paz readquirida ou ampliada, alegria por enxergar de novo e cada vez melhor o nosso caminho atrás de Jesus, causa de toda nossa felicidade.

30 outubro 2019

A hora da verdade

      De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 24 de novembro de 1994

      Desta vez, apresento-lhes outro instrumento típico e útil à espiritualidade coletiva e, sem dúvida, o mais árduo e o mais difícil para o nosso “homem velho”. Mas, considerando a medida com a qual queremos amar o próximo, ou seja, até dar a vida, acho que seja também praticável.
      Trata-se da “hora da verdade”.
      Embora de modo bastante diferente, ela lembra um hábito que ocorria entre os primeiros cristãos, os quais, desejando a perfeição para se manterem seguidores de Jesus e amando os irmãos em quem tinham plena confiança, chegavam, às vezes, até a confessar os próprios pecados uns aos outros.
      Trata-se aqui de outra coisa bem diferente. Os pecados nós os contamos aos confessores, mas, pela caridade, que também nutrimos por nossos semelhantes e pelo desejo de cooperar para que também eles se santifiquem conosco, empenhamo-nos a lhes oferecer, com amor, o que neles podemos observar de negativo e positivo.
      É uma prática exigente, mas serve muito para a Santa Viagem.
      No Movimento, costumava-se colocá-la em prática desde os primeiros tempos e ainda hoje temos dela uma muito boa impressão.
      O fato é que um irmão pode ser realmente útil para o outro, como uma mão sabe lavar a outra. A esse propósito, lembro de um provérbio africano que diz que o irmão é como um olho que temos atrás da cabeça. E isso quer significar que o irmão vê onde nós não vemos.
      É preciso reunir-se num grupo não numeroso demais. […] Para que [a hora da verdade] produza seus frutos, será necessário dispor de um pouco de tempo e agir com calma.
      Um responsável deverá estar presente, como moderador, para confirmar ou corrigir o que for dito.
      Antes de qualquer outra coisa, será bom renovar o pacto entre todos, para que tudo se desenrole somente no amor pleno.
      E qual disposição de ânimo deverá ter quem for submetido ao julgamento fraterno dos demais? Com o ânimo de quem sabe que é sempre um simples servo (cf. Lc 17,10), de que é nada, porque assim é cada um perante Deus. Desse modo, não se perturbará nem se exaltará com tudo o que for dito.
      Depois, sorteia-se um do grupo. E, sob a orientação do moderador, cada irmão dirá algum defeito daquele que foi escolhido, alguma imperfeição, algum senão que achar que notou nele. Depois, refazendo a rodada, cada um dirá também alguma virtude, alguma qualidade que pôde notar.
      No final – essa é a nossa constatação contínua – todos são tomados por uma grande alegria e não se sabe a razão. Talvez seja a experiência da liberdade cristã; a atuação da Palavra: “A verdade vos tornará livres” (Jo 8,32). […]
      “A hora da verdade” é uma espécie de maquiagem espiritual. É como quando se aplica o cosmético no rosto: ele tira as impurezas e deixa a pele macia e elástica, e dá uma sensação de bem-estar; algo semelhante acontece para as nossas almas.
      A “hora da verdade” é uma verdadeira bênção em nossa corrida para a santidade. Procuremos praticá-la com alegria, no momento oportuno. Deus ama a quem dá com alegria (cf. 2Cor 9,7).

29 outubro 2019

Comunhão das experiências da Palavra de Vida

      De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 27 de outubro de 1994

      Desta vez, falamos da “comunhão das experiências da Palavra de Vida” […]. Não se deve confundi-la com a “comunhão de alma”, do modo como a descrevi na última vez, mas é uma prática distinta que, como vocês sabem, remonta aos primeiros dias da vida do Movimento.
      De fato, a Palavra de Vida tem uma importância fundamental para nós. A nossa Obra nasceu como uma encarnação dela.
      Por meio da Palavra vivida com radicalismo Cristo se forma em nós.
      Além disso, a Palavra é importantíssima porque, por meio dela, assumimos como nossa toda aquela grande regra (era assim que víamos o Evangelho desde os primeiros tempos) de onde haurimos a nossa espiritualidade. […] Mas isso não basta.
      Somos chamados a pôr em comum nossas experiências relativas a ela. Por quê? Porque é isso que Deus quer numa espiritualidade coletiva e é uma grave omissão deixar de colocar essa comunhão em prática.
      Os santos não hesitam muito em atribuir essa transgressão ao inimigo dos homens (ao demônio).
      Em uma carta, santo Inácio de Loyola fala da “falsa humildade” como uma arma que o demônio usa para prejudicar as pessoas. Diz ele: “Vendo o servo de Deus tão bom e humilde que […] acha que é completamente inútil […] faz com que ele pense que, se fala de alguma graça [e acrescentamos: como seria a luz que vem do fato de viver a Palavra] que Deus Nosso Senhor lhe concedeu, graça de obras, propósitos e desejos, peca com [uma] espécie de vanglória porque fala em sua honra. Portanto, faz com que ele não fale dos benefícios recebidos do seu Senhor, impedindo assim de dar frutos em outros e em si mesmo, uma vez que a lembrança dos benefícios contribui sempre para coisas maiores” (Carta de 18.6.1537, in Loyola, 1977, p. 725-726).
Eu acrescentaria que algumas vezes não se pratica a comunhão sobre as experiências da Palavra de Vida por preguiça ou porque somos arrastados por um falso ativismo e, portanto, mais levados a olhar fora do que dentro.
      Não! Nós devemos ser fiéis aos nossos deveres, devemos agarrar com força esse outro instrumento de nossa espiritualidade coletiva toda vez que for vontade de Deus (e estamos estabelecendo isso para todas as diversas vocações da Obra).

28 outubro 2019

A comunhão de alma

De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 22 de setembro de 1994

      A “comunhão de alma” deve ser feita entre nós para colocar em comum os bens espirituais que possuímos, e assim colaborar para a santificação do outro como para a nossa. Sabemos que: nós “somos” na medida em que “somos para os outros”.
      Põe-se em comum tudo o que é belo e útil com vistas à santidade e, não por último, os frutos da nossa meditação. […]
      [Com ela] confrontamo-nos todo dia com o nosso Ideal, por meio da leitura da Sagrada Escritura, de trechos da nossa espiritualidade, de escritos dos santos ou de documentos da Igreja apropriados para essa finalidade. Colocamo-nos na presença de Deus; consideramos o estado de nossa vida espiritual; deixamo-nos iluminar por um assunto ou outro que temos à frente; falamos com a Santíssima Trindade, com Jesus, ou o Pai, ou o Espírito Santo, ou então, com Maria, sobre tudo o que diz respeito à nossa alma; fazemos propósitos a serem postos em prática coerentemente.
      Tudo isso é bom? É ótimo! E deve ser feito cada vez melhor, toda vez possivelmente com maior zelo.
      Mas, o simples fazer meditação, até perfeitamente, ainda não é um princípio da nossa espiritualidade coletiva. […] Somos chamados a fazer render em proveito também dos outros o que Deus nos fez entender na meditação e o que foi o fruto dela. E isso é feito na “comunhão de alma”.
      Então, é necessário estabelecer um tempo com os nossos irmãos ou as nossas irmãs para fazer isso. […] Serve de encorajamento lembrar que aquilo que não se comunica se perde; ao passo que aquilo que se doa volta reforçado à alma do doador, além de se tornar útil para os outros.
      Um exemplo da “comunhão de alma” é nos dado por Maria diante da prima Isabel. No Magnificat, a Mãe de Jesus, a toda humilde, fala de si, daquilo que Deus operou nela, e faz isso para a glória de Deus. É evidente que entre ela e a prima já havia o amor mútuo, mas o Magnificat o corroborou.
      O mesmo devemos fazer também nós, ficando atentos a que tudo sirva unicamente ao bem dos irmãos e que nada tenha a ver com a nossa vanglória.
      Comecemos, então, a pôr em prática com regularidade esse segundo princípio da nossa espiritualidade. Essa comunhão espiritual sempre dará um novo impulso à nossa vida ideal.

27 outubro 2019

Os tesouros do rei

Welwyn Garden City (Londres), 20 de novembro de 1996

      Faz-se uma comunhão das riquezas espirituais, porque está escrito que “é bom manter ocultos os tesouros do rei; porém, é ótimo revelá-los” [cf. Tb 12,7]. Então, nós dizemos: É preciso mantê-los escondidos, para não “dar” – como diz o Evangelho – “as coisas santas aos cães” [cf. Mt 7,6], mas é preciso revelá-las quando, no entanto, é o momento oportuno. Por exemplo: entre nós, dispomo-nos na sexta-feira, entre nós focolarinas, no meu focolare, todas juntas. Então, eu digo alguma coisa sobre como passei a semana, coisas alentadoras que tive a impressão de entender, talvez dificuldades que superei, ou que tive dificuldade em superar, ou como entendi melhor Jesus Abandonado, ou como quero amá-lo, ou o que procurei fazer. As outras fazem a mesma coisa, de modo que é um enriquecimento recíproco dos bens espirituais. Tudo é feito como dádiva de amor. E os outros o aceitam como dádiva de amor. Essa é a comunhão de alma.

26 outubro 2019

Amou-nos

Loppiano, 18 de abril de 2000

      O pacto do amor mútuo foi o que fizemos quando entendemos que o mandamento de Jesus era o que Jesus mais desejava, e então nos lançamos: “E eu estou pronta a morrer por você”; “Eu estou pronta a morrer por você”.
      Depois, com o tempo, entendemos que existia prontidão neste sentido: que, se por acaso fôssemos chamadas por Deus a morrer mesmo, morreríamos; enquanto isso, dividíamos as coisas entre nós. Ultimamente, entendemos ainda mais profundamente que, na realidade, diante do irmão, é preciso morrer de fato, não com o sangue, mas com a alma, o que significa perder tudo, tudo, tudo, para inserir-se nele, para entendê-lo, para abraçar as suas dores, os seus pesares, os seus… e vice-versa. O amor mútuo é: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Amou-nos até o abandono, portanto, também nós: vivermos Jesus Abandonado, sermos nada para entrarmos no outro.

25 outubro 2019

Criar as condições necessárias

De uma conferência telefônica
      Suíça, 13 de setembro de 1990

      Devemos antes criar as condições necessárias, suscitar a atmosfera adequada para, depois, poder dizer ao outro, com coragem: “Eu – com a graça de Deus – quero estar pronto a morrer por você”. E, por sua vez, poder ouvir: “E eu, por você”.
      Depois devemos agir com coerência, atiçando o fogo do amor com relação a cada próximo. Desse modo, vivemos também a Palavra de Vida do mês de setembro que diz: “Não fiqueis devendo nada a ninguém… a não ser o amor que deveis uns aos outros, pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei” (Rm 13,8).

24 outubro 2019

Disposição para “dar a vida”

      De uma palestra aos jovens da Jornada Mundial da Juventude
      Santiago de Compostela, 16 de agosto de 1989

      Se alguém ama, é frequente ser amado de volta, e por isso o amor se torna mútuo. E esse é o mandamento próprio de Jesus. Vocês sabem, na Trindade vive-se o amor e, portanto, Jesus trouxe o amor mútuo, porque as pessoas da Santíssima Trindade se amam assim.
      De fato, Jesus diz que esse mandamento é “seu” – “o meu mandamento” – e é “novo”, termos que não se encontram em outras partes [do Evangelho]. Diz: “Amai-vos como eu vos amei” (cf. Jo 15,12). É uma medida! Morreu por nós e diz que é preciso amar um ao outro até dar a vida: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida” (cf. Jo 15,13).
      Portanto, vocês entendem que ceder um espaço na barraca de lona, uma cama de campanha, uma coisa qualquer, em comparação com a vida, já que é essa a medida…
      E os seguidores de Jesus não poderão dizer que são autênticos se não forem capazes de dar a vida.
      É algo muito exigente, mas não tenham medo. Existem os que os precederam: Jesus como primeiro, os santos. […]
Nem sempre nos é solicitado dar a vida: agora, por exemplo, vocês, no máximo, têm de ficar ouvindo e eu, falando alguma coisa: não é realmente dar a vida. Mas, no fundo, é preciso ter sempre esta disposição: se me for solicitada [a vida], eu a dou; se me for solicitada… No fundo, é preciso tê-la.

23 outubro 2019

O dia do Amor

De uma conferência telefônica
      O dia 12 de abril daquele ano era uma Quinta-Feira Santa. Chiara celebrava esse dia como “o dia do amor”.
     
      Rocca di Papa, 12 de abril de 1990

      Este é o dia do amor, porque é tudo amor o que neste dia se comemora.
      Amor, o sacerdócio ministerial. […]
      Amor, a Eucaristia, na qual Jesus se deu inteiramente a nós.
      Amor, a unidade, efeito do amor, que Ele num dia como hoje suplicou ao Pai.
      Amor, o seu “Mandamento Novo”, que nos deixou.
      E é sobre o Mandamento Novo de Jesus que gostaria de me deter.
      Nós o propusemos no Genfest6 como uma grande oportunidade para se chegar a um mundo unido. E todos, uns mais, outros menos, vão agora se esforçar para colocá-lo em prática.
E nós, que estamos no coração da Obra, os seus mais íntimos, o que fazermos?
      Minha proposta é esta.
      Hoje começa o tríduo pascal. São três dias solenes.
      Pois bem, em um desses dias, devemos encontrar um momento solene em que renovaremos entre nós […] onde for possível, aquele pacto que as primeiras focolarinas fizeram quando declararam umas às outras: “Eu estou pronta a morrer por você, eu por você, eu por você…”.
      É verdade que até essa pequena, grande coisa, nem sempre é de todo fácil: mesmo nas estruturas fundamentais de nossa Obra, o respeito humano pode ter-se infiltrado. Talvez para alguns seja mais fácil tomar essas decisões diretamente com Deus. Mas a nossa espiritualidade é coletiva e não podemos traí-la.
      O pacto de outrora foi o marco histórico do Movimento. Ali, Jesus se pôs em nosso meio. Portanto, encontremos o modo de renová-lo. Depois, esforcemo-nos para viver de acordo.
      O nível sobrenatural vai aumentar em toda a Obra, e nos tornaremos de modo melhor – como devemos ser – os primeiros operários de um mundo unido.
      O Ressuscitado será mais resplandecente entre nós, com o seu Espírito, como requer a festa de Páscoa, que nos preparamos para festejar. Sem esquecer que o dia de amanhã, Sexta-Feira Santa, lembra Jesus Abandonado, a chave divina que torna realmente possível estarmos prontos a morrer um pelo outro.

22 outubro 2019

Renovar o “pacto de amor mútuo”

      Uma declaração sagrada
      De uma conferência telefônica
      Sierre (Suíça), 25 de agosto de 1994

      O primeiro princípio sobre o qual se apoia [a nossa espiritualidade] é, sem dúvida, o Mandamento Novo de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (cf. Jo 15,12). […]
Não será nada mau – penso eu – que nos exercitemos um pouco em profundidade nesse primeiro princípio, fundamento de toda a construção.
      E o que fazer concretamente?
      Eu diria que reavivássemos esse amor entre nós e, para que o nosso agir tenha seriedade e se assinale como que uma nova etapa no caminho da nossa Santa Viagem4, aconselharia a vocês e a mim que nos redeclarássemos esse amor entre nós, […] com todos aqueles com os quais convivemos normalmente, embora de modos diferentes. Fizéssemos como fizeram as primeiras focolarinas quando se declararam: “Estou pronta a morrer por você; eu, por você”, ou seja, todas por qualquer uma, lançando assim os fundamentos da nossa Obra5. E depois, procurar viver coerentemente, com toda a intensidade.
      Isso não significa, vocês sabem disso, que, mediante o amor mútuo, a unidade se realiza uma vez para sempre. Ela precisa ser renovada todo dia, mediante propósitos e fatos. […]
      É sagrada essa declaração de amor mútuo, é sagrado esse pacto que lhes peço; é solene, mesmo quando feito na simplicidade; e não está isento de dificuldades. De fato, será fácil pronunciá-lo com alguns; com outros, será necessário preparar o terreno. É um ato não isento de sacrifício, porque às vezes será necessário vencer o respeito humano, outras vezes, superar a indolência ou a rotina espiritual em que talvez tenhamos caído. Será necessário praticar a humildade para fazer o amor próprio calar; em resumo, pagar o primeiro preço da passagem de um modo de viver individual para uma espiritualidade coletiva.
      Mas, Deus abençoará todo esforço e, se depois formos fiéis ao que dissemos, ele nos dará a alegria de divisar a sua presença, efeito da unidade, aonde quer que nos dirijamos.

21 outubro 2019

O primeiro dever

      De uma conferência telefônica
      Castel Gandolfo, 29 de abril de 1999

Um dia, eu, como espero outros, havia-me proposto, como Jesus diz e quer, a “rezar sempre” [cf. Lc 18,1], oferecendo a Ele cada ato, precedido por um “Por ti”. Com a graça de Deus, tinha sido particularmente fiel a esse compromisso. De modo que, como conclusão do dia, perguntei a Deus numa conversa com Ele se estava satisfeito comigo ou, caso não estivesse, que me corrigisse.
      Tive a impressão de perceber a sua resposta no fundo do coração, que pode ser expressa assim: “O teu modo de viver hoje, oferecendo a Deus cada ato teu com um ‘Por ti’, foi sem dúvida do meu agrado, mas poderia ser muito bom também o modo de qualquer um que segue uma espiritualidade individual. Tu és chamada para outra coisa. De ti, quero algo diferente. Tua vocação requer que coloques, acima de tudo, como base de cada ação tua, embora oferecida com um ‘Por ti’, o amor mútuo com tuas irmãs e teus irmãos. Por isso, tua primeira obrigação deve ser: estar sempre disposta a dar a vida por eles, para que a unidade triunfe”.
      Entendi a lição.
      Certamente, depois de tantos anos de vida espiritual, eu havia procurado, inclusive naquele dia, viver o Mandamento Novo, mas não como minha primeira obrigação.
      Então, procurei logo quem estava perto de mim, disposta a estar pronta a morrer também por ele, por ela e, portanto, a assumir todos aqueles comportamentos coerentes de modo a poder oferecer a Jesus, baseada unicamente nisso, cada ato com um ‘Por ti’.
      São mais de cinquenta anos que digo a mim mesma e digo a vocês que a “norma das normas”, portanto, também a regra básica para poder rezar, é a unidade.
      Mesmo assim, é necessário sempre reavivar no coração essa obrigação nossa, é necessário sempre recomeçar. […]
      Façamos todo o esforço para não esquecer isso, ou melhor, para não esquecer Aquele que deve preceder cada coisa. É Ele a grande novidade que somos chamados a oferecer ao mundo.
      Que honra poder viver essa vocação! Que plenitude de alegria!

20 outubro 2019

Reavivar os relacionamentos

      De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 26 de maio de 1988
      Há uma página do Evangelho que encontra uma ressonância particular em nós e nos aponta o que fazer [para viver como cristãos autênticos]. Jesus diz: “Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor”. “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros” (Jo 15,10.12).
      Portanto, tudo está contido no amor mútuo.
      Vivendo assim, encontramos o meio de ser Ideal vivo3.
      Nessas últimas semanas, esforçamo-nos para amar com as obras.
      Mas existe modo e modo de praticar obras.
      A grande e, ao mesmo tempo, simples revolução que o nosso Movimento trouxe, e traz, ao mundo é justamente esta: com relação às obras, viver conforme o pensamento de Cristo, e não diferentemente. Eram, e são, muitos aqueles que agem, e agem, num ativismo não inteiramente cristão. Vale para eles a admoestação de Paulo: “Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres […], mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria” (1Cor 13,3).
      O Senhor nos concedeu a graça de nos impelir sempre a colocar o amor mútuo na base de qualquer outra coisa: “Sobretudo, cultivai o amor mútuo, com todo o ardor” (1Pd 4,8).
      “Sobretudo”. É assim que nossa ação adquire valor.
      E é para isso que convido todos, nesses próximos quinze dias. Assim como numa fogueira é necessário, de vez em quando, mexer as brasas com um ferro para a cinza não as cobrir, também […] é necessário, de tempos em tempos, dedicar-nos a reavivar o amor mútuo entre nós, reavivar os relacionamentos, para não serem encobertos pela cinza da indiferença, da apatia, do egoísmo. […]
      Reavivar os relacionamentos: aproveitar todas as ocasiões do dia para fazer saírem chamas de amor incandescente de nossos corações e dos corações dos irmãos.
      Desse modo, veremos todas as expressões do nosso Movimento revitalizarem-se, reavivarem-se, rejuvenescerem-se, e todos nós nos tornarmos mais fervorosos, mais belos, mais nós mesmos, como Deus nos quer.

19 outubro 2019

O que é “como eu vos amei”

      De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 22 de fevereiro de 1996
      Entre nós, no Movimento, onde já atuamos, ou devemos atuar, o amor que vai e o amor que volta, dediquemo-nos a viver o amor mútuo, mas de modo novo.
      Na realidade, algumas sugestões já nos foram dadas a esse respeito por meio do segundo tema sobre a espiritualidade coletiva: devemos viver esse mandamento com o “algo a mais” que a nossa espiritualidade comunitária exige1.
      […] “Algo a mais” porque aquele “como” do Mandamento Novo deve ser interpretado e vivido por nós de modo especial, ou seja, segundo o modelo de Jesus Abandonado. Aquele “como” que, se vivido assim, gera a unidade.
      Em Jesus Abandonado, aquele “como” significa não apenas a prontidão – se nos for solicitada – em dar a vida um pelo outro, mas o total morrer diário diante dos irmãos, em um despojamento exterior e interior, das coisas materiais às espirituais.
      Entre as espirituais, ele engloba inclusive o desapego do nosso pensamento. “A altíssima pobreza de mente”, diria são Francisco.
      Desapego que possibilita entender o pensamento do irmão até o fim e exige a doação de nosso pensamento ao irmão com generosidade e delicadeza.
      Desapego que gera a unidade de pensamento.

18 outubro 2019

Viver o Mandamento Novo

De uma conferência telefônica
      Rocca di Papa, 18 de outubro de 1984

      [Tenho] um desejo ardente, que pretendo agora comunicar-lhes, de viver cada vez melhor [o Mandamento Novo], procurando aperfeiçoá-lo, dirigindo para isso todo o esforço ascético da renúncia cristã, da qual nos devemos revestir; porque amar assim não é uma coisa meramente natural, mas sobrenatural.
      Como, então, dar a Deus o que é de Deus?
      Reconvertendo-nos a cada momento ao Mandamento Novo, não com as palavras, mas com os fatos.
      Poderemos tranquilizar a nossa consciência por termos feito a nossa parte, por termos feito tudo.

16 outubro 2019

A antessala do céu

Do artigo “Deus o quer”
      Março-abril de 1947

      Jesus desceu do Céu trazendo-nos a “sua” Ideia, a vida do “seu” ambiente: o Céu. Lá no alto, ama-se a Deus numa indescritível harmonia de espíritos e todos se amam numa Unidade que é perfeição de felicidade. Veio entre nós. Queria deixar-nos o “seu” perfume, o “seu” ambiente: fazer da terra a antessala do Céu.

15 outubro 2019

A base de toda a vida cristã

      Do diário
      26 de outubro de 1980
      Algumas vezes, pensando no compromisso de fazer a vontade de Deus, temos a impressão de ter de reduzir a nossa vida apenas a uma série de atos perfeitos.
      Mas não é bem assim.
      Sabemos que Jesus assumiu o lugar que a Lei tinha no Antigo Testamento. Qual é, então, a vontade de Deus que Jesus manifesta? Qual é a Lei agora?
      Ela está sintetizada no Mandamento Novo.
      Então, viver a vontade de Deus é viver sobretudo aquele mandamento, que deve ser posto como fundamento de toda a vida do cristão. […]
      Portanto, o pacto continua atual, continuam atuais todas aquelas ações (comunhão dos bens materiais e espirituais, admoestação mútua etc.) necessárias para cumpri-lo.
      Uma série de atos um pouco mais ou um pouco menos perfeitos pode ser a vida espiritual de quem não conhece a nossa espiritualidade. Para nós (que tivemos essa graça) é outra coisa: certamente devemos cumprir a vontade de Deus no presente com todo o coração, a alma e as forças, mas no contexto do mandamento de Jesus, tendo como base o amor mútuo. Isso é o que Jesus quer de nós.

14 outubro 2019

Um pequeno choque espiritual

      De uma conferência telefônica
      Castel Gandolfo, 20 de fevereiro de 2003

      Esses dias, peguei um livro que me presentearam, que talvez vocês também conheçam. Seu título é O segredo de Madre Teresa, de Calcutá (Gaeta, 2002). Abro-o no meio, onde fala de “mística da caridade”. Leio esse capítulo e outros. Mergulho com grande interesse naquelas páginas: tudo o que se refere a essa próxima santa interessa-me pessoalmente. Durante anos, ela foi uma amiga minha preciosíssima.
      Logo me vem à mente, muito claro, o radicalismo extremo de sua vida, de sua vocação sem meias medidas, que impressiona, e quase que amedronta, mas, sobretudo, estimula-me a imitá-la naquela dedicação peculiar, radical e sem meias medidas que Deus me pede. De fato, cada carisma é uma flor maravilhosa, única, que não se repete, diferente dos outros como, aliás, madre Teresa pensava. Quando tínhamos ocasião de nos encontrar, ela me repetia: “O que eu faço você não pode fazer. O que você faz eu não posso fazer”.
      Movida por essa convicção, tomo nas mãos o nosso Estatuto, convicta de que lá encontraria a medida e o tipo de radicalismo de vida que o Senhor me pede. Abro e, logo na primeira página, tomo um pequeno choque espiritual, como que causado por uma descoberta do momento (e são quase sessenta anos que o conheço!). Trata-se da “norma das normas, a premissa de qualquer outra regra” da minha e da nossa vida: gerar – assim se expressava o Papa Paulo [VI] – e manter, primeiro e acima de tudo, inclusive nos grandes empreendimentos, inclusive nos compromissos extraordinários, inclusive nos sucessos para o Reino, manter Jesus entre nós com o amor mútuo.
      Porque, entendo logo, este é o meu e o nosso dever mais importante, especialmente hoje.

13 outubro 2019

Cristo em nós que ama com a caridade

De um discurso aos dirigentes do Movimento dos Focolares
      Rocca di Papa, 24 de outubro de 1978

      O Senhor usou de toda uma pedagogia para nos ensinar a amar o irmão, permanecendo no mundo sem ser do mundo. De imediato, fez-nos entender que era possível amar o irmão, sem cair no sentimentalismo ou em outros erros, por que Ele mesmo podia amar em nós, com a caridade. […]
      A caridade é uma participação no “ágape” divino. […]
      Depois de ter dito que Deus nos amou, são João não conclui – como teria sido mais lógico – que, se Deus nos amou, devemos amá-lo em troca, mas diz: “Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4,11).
      E, somente porque a caridade é participação no “ágape” de Deus, podemos ultrapassar os limites naturais e amar os inimigos, e dar a vida pelos irmãos.
      É por isso que o amor cristão é próprio da era nova, e o mandamento é radicalmente novo e introduz uma “novidade” absoluta na história humana e na ética humana. Como escreve Agostinho: “Este amor nos renova, para que sejamos homens novos, herdeiros do Testamento Novo, cantores do cântico novo” (cf. Io. Evang. tract. 65,1; PL 34-35).

12 outubro 2019

Aí está Deus

De uma palestra aos seminaristas

      Castel Gandolfo, 30 de dezembro de 1989

      O Mandamento Novo vivido produz efeitos extraordinários.
      Quem começa a colocá-lo em prática, percebe, antes de tudo, um salto de qualidade em sua vida espiritual. Por exemplo, experimenta, de maneira nova, os dons do Espírito Santo: conhece uma alegria nova, uma paz, uma benevolência, uma magnanimidade nova… […]
      Porque “onde está a caridade, aí está Deus”.

11 outubro 2019

Cultivai o amor mútuo

De um discurso no congresso de cristãos ortodoxos

      Castel Gandolfo, 30 de março de 1989


      Uma das Palavras que ficou fortemente gravada dentro de nós e que nos ajudou a manter o amor mútuo foi a de Pedro: “Mas sobre tudo” – sobre tudo, sobre tudo – “cultivai o amor mútuo” (cf. 1Pd 4,8). “Sobre tudo”: nada se pode fazer sem que esse amor exista, seja garantido. Não íamos trabalhar, não íamos rezar, não íamos dormir, não íamos comer, se antes não estivéssemos certas de que havia esse amor entre nós.

10 outubro 2019

O Seu Testamento na terra

Da palestra aos estudantes de teologia

      Berlim, 7 de julho de 1960

      Havia em nosso coração este desejo: que Jesus visse o seu testamento realizado na terra, ao menos entre nós, e que esse testamento sempre se realizasse, porque nos lembramos daquilo que a Escritura diz: “Ante omnia, antes de tudo, a mútua e contínua caridade” [cf. 1Pd 4,8]. Antes de tudo, portanto, antes do estudo, antes do trabalho, antes da vida, antes de qualquer coisa nossa que acalentássemos, antes de todas as coisas, a mútua e contínua caridade.

09 outubro 2019

Partilhar

Da palestra aos estudantes de teologia

      Berlim, 7 de julho de 1960

      Se a medida do nosso amor mútuo era a cruz, tudo o mais que devíamos dar-nos mutuamente era pouca coisa, era bem pouca coisa!
      Assim, começamos a pôr em comum os poucos bens que tínhamos, começamos a partilhar as dores uma com a outra, começamos a partilhar as alegrias entre nós, a pôr em comum as nossas roupas, porque, diante da medida que nos havíamos proposto, tudo isso era muito simples, muito pouco.

08 outubro 2019

O estilo do Mandamento Novo

De uma palestra aos jovens da Jornada Mundial da Juventude

      Santiago de Compostela, 17 de agosto de 1989

      Então, formamos um círculo – éramos sete, oito moças – e, olhando-nos uma para a outra, dissemos: “Eu estou pronta a morrer por você”. A outra: “Eu estou pronta a morrer por você”. “Eu, por você”. “Eu, por você”. Todas, por qualquer uma.
      E começamos esse novo estilo de vida, o estilo do Mandamento Novo, prontas a morrer: portanto, prontas a ceder também as pequenas coisas que tínhamos, prontas a talvez passar a noite em claro para ficar ao lado de uma que estivesse de cama doente, prontas a ceder um pouco de pão, a ceder uma roupa, porque estávamos prontas a morrer uma pela outra.

07 outubro 2019

Reconciliar-se com teu irmão

Das palestras preparadas para o encontro de férias (Mariápolis) de 1959

      A partir de 1955, os encontros do Movimento foram denominados “Mariápolis”, ou seja, cidades de Maria.
      Sabíamos que Deus nos havia amado até morrer por nós; portanto, devíamos estar prontas a morrer uma pela outra. Com isso deu-se uma espécie de conversão em nossa alma, porque, a essa altura, já tínhamos no coração a decisão de colocar como base de nossa vida, qualquer que fosse ela, a mútua e contínua caridade.
      Também de manhã, antes de irmos à missa ou à Comunhão, nos perguntávamos: “Estamos prontas a morrer uma pela outra?” Porque o Evangelho nos sugeria: “Portanto, quando estiveres levando a tua oferta ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”.

06 outubro 2019

Este é o meu Mandamento...

De um discurso aos muçulmanos

      Nova York, Mesquita de Harlem, 18 de maio de 1997

      Pensamos um dia, sempre diante da morte: existe uma vontade sua que ele considera de modo especial? Gostaríamos de pôr em prática justamente essa, antes de morrer.
      No nosso Evangelho, encontramos esta frase de Jesus: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (cf. Jo 15,12-13). Era um mandamento que Ele dizia ser “novo” e “seu”. Exatamente do que precisávamos.
      Então entendemos que, se até aquele momento, o ensinamento do Evangelho nos havia impelido a amar os outros, agora devíamos voltar a atenção também uma para a outra e nos amar assim: até estarmos prontas a morrer uma pela outra.

05 outubro 2019

Aquele que dá a vida

De um discurso à Comunidade de Santo Egídio

      Roma, Basílica de Santa Maria in Trastevere, 11 de dezembro de 1997

      Questionamo-nos: Mas deve haver uma vontade de Deus que seja do agrado particular de Jesus, porque nesse passo podemos morrer de um momento a outro. Tudo bem, temos vinte anos, temos quinze anos, temos vinte e três anos, mas nesse passo podemos morrer. Haverá uma vontade de Deus? Queríamos chegar diante Dele, tendo cumprido justamente aquela, no final da vida.
      E lembro que abrimos o Evangelho e encontramos: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”.

04 outubro 2019

Será o nosso Mandamento

Berlim, 7 de julho de 1960

      Jesus havia dito muitas coisas que para nós eram vontade de Deus, e nasceu em nosso coração um desejo. Uma vez que podíamos morrer de um momento a outro, porque não estávamos absolutamente protegidas da guerra, tivemos este desejo no coração: saber, estudar, ver se havia uma vontade de Deus a que Jesus dava especial importância, porque nosso coração realmente se inflamara por Deus e queria terminar os últimos momentos do melhor modo possível.
      Então, lembramo-nos de que Jesus disse, antes de morrer: “Dou-vos um Mandamento Novo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. E Ele disse que é o seu mandamento: o meu mandamento. Então, por amor a Jesus, por amor a Deus, dissemos: será o nosso mandamento.

03 outubro 2019

Prioridade absoluta da caridade

      Portanto, não dávamos um passo se não estivéssemos todas unidas pela mútua caridade:
      “…ante omnia…” [cf. 1Pd 4,8].
      Portanto, antes de qualquer outra coisa, o amor mútuo.
      E se nos evidenciavam outras Palavras de Jesus no Evangelho: “Portanto, quando estiveres levando a tua oferta ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então, vai apresentar a tua oferenda” (Mt 5,23-24. […]

02 outubro 2019

Uma presença que encerra um salto de qualidade

      A força que nos vinha da união que o amor mútuo operava levou-nos logo a refletir sobre as Palavras de Jesus:
      “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20).
      E [levou-nos] a ver os efeitos admiráveis que essa unidade operava principalmente na oração:
      “Eu vos digo mais isto: se dois de vós estiverem de acordo, na terra, sobre qualquer coisa que quiserem pedir, meu Pai que está nos céus o concederá” (Mt 18,19).
      Portanto, Jesus estava em nosso meio porque estávamos unidas em Seu Nome.
      Esse mistério tão delicioso nos forçava a manter firme a nossa unidade para tê-lo sempre entre nós. […]

01 outubro 2019

Deus em Deus

6 de novembro de 1949


      Deus, que em mim reside, que a minha alma plasmou, que nela repousa como Trindade (com os santos e com os anjos), também reside no coração dos irmãos.
      Portanto, não é razoável que eu o ame só em mim. Se assim fizesse, meu amor ainda manteria um quê de pes­soal, de egoísta: amaria Deus em mim e não Deus em Deus, porquanto a perfeição é: Deus em Deus (que é Unidade e Trindade).
      Por conseguinte, a minha cela (como diriam as almas íntimas a Deus) é nós: o meu Céu está em mim e, do mesmo modo que está em mim, está na alma dos irmãos.
      E, como o amo em mim, ao recolher-me nesse meu Céu – quando estou só –, amo-o no irmão quando ele está junto a mim.
      Então, não amarei o silêncio, amo a palavra (expressa ou tácita), ou seja, a comunicação do Deus em mim com o Deus no irmão. Se os dois Céus se encontram, existe aí uma única Trindade, em que os dois estão como Pai e Filho e, entre eles, está o Espírito Santo.
      É necessário, sim, recolher-se sempre, inclusive na presença do irmão sem, contudo, esquivar a criatura – mas recolhendo-a no próprio Céu e recolhendo-se no Céu dela.