E agora podemos nos
perguntar: como conseguimos penetrar na palavra de Deus e compreendê‑la a ponto
de apresentá‑la nova e portadora de uma força vital e revolucionária?
Sem dúvida ‑ agora podemos
dizê‑lo ‑ foi em virtude de uma graça especial, graça que ensinava a
colocar e a viver em profundidade a presença de Cristo entre as almas.
O
Senhor agiu da seguinte maneira: com a sua pedagogia, de início nos indicou
algumas palavras que podem parecer mais fáceis. Todavia, ele tinha um motivo
bem determinado para escolher tais palavras. Em geral eram as que diziam
respeito ao amor: “Ama ao próximo como a ti mesmo”, “amai‑vos uns aos outros”,
“amai o inimigo”, “amai...”; sempre o amor.
Só mais tarde
compreendemos o motivo desta escolha: quem ama, adquire a luz, porque o fruto
do amor é a iluminação interior.
E tem mais: o amor que
Deus coloca dentro da nossa alma é sobrenatural, faz participar o nosso amor do
próprio amor de Deus; portanto, é recíproco por sua própria natureza. Na
reciprocidade do amor, acontecia que o Senhor, aos poucos, nos acostumava a
acolher a sua presença entre nós. E esta presença influía na compreensão da sua
palavra. Era ele o nosso Mestre, que nos ensinava como deviam ser entendidas as
suas palavras. Era uma espécie de exegese, feita não por um mestre de teologia,
mas pelo próprio Cristo.
De fato, diz Santo Anselmo, Doutor da Igreja: “Uma coisa é possuir
facilidade de eloquência e esplendor de palavra, e outra é entrar nas veias e
na medula das palavras celestes e contemplar com límpido olhar do coração os
mistérios profundos e escondidos. Isto não pode ser dado, de maneira alguma,
nem pela doutrina, nem pela erudição do mundo, mas somente pela pureza da mente
através da erudição do Espírito Santo. E a presença de Jesus entre nós traz o
seu Espírito.
Por outro lado, lembramos que uma das primeiras páginas
do Evangelho que lemos foi o Testamento de Jesus. O acontecimento de grande
importância. Está ainda presente em nossas mentes o fato de que, na medida em
que passávamos de uma palavra a outra, cada um parecia iluminar‑se; e era ‑
agora percebemos ‑ como se alguém nos dissesse: ‑Olha, na escola, vocês têm de
aprender muitas coisas, mas o resumo é isto, isto, isto: consagra‑os na
verdade... que todos sejam um... tereis a plenitude da alegria... sereis todos
um, como eu e o Pai... etc. O Testamento se nos revelava como a síntese do
Evangelho. E entendíamos esta realidade com uma compreensão que só podia ser
fruto de uma graça especial. Tendo penetrado o "seu" Testamento ‑ como
Deus quis e na medida em que quis ‑ depois nos foi mais fácil entender o resto
do Evangelho.
Amiúde,
dávamos este exemplo: imaginem o Evangelho como uma planície, um terreno onde
estão todas as palavras: lá no fim, encontra‑se o Testamento de Cristo, que
sintetiza todas as outras palavras. 0 Senhor, ensinando‑nos a unidade à qual
todas as verdades evangélicas se ligam, fez como que uma perfuração no terreno,
para fazer‑nos penetrar e entender o resto do Evangelho por dentro, colhendo‑o
na raiz de cada palavra, no seu sentido mais verdadeiro.
Após viver durante cinco ou seis anos as palavras
do Evangelho, percebemos claramente que elas se assemelhavam: havia algo de
comum entre todas; cada uma ‑diria ‑ valia tanto quanto qualquer outra, porque
os efeitos produzidos nas almas que as viviam eram idênticos, não importando qual fosse a
palavra vivida. Por exemplo, para viver a palavra: “Quem vos ouve a mim
ouve...”, não ficávamos esperando encontrar algum bispo ou superior para
colocá‑la em prática, mas a nossa vida toda, cada segundo da nossa existência,
se transformava em obediência àquilo que os sacerdotes nos haviam ensinado
através do catecismo, ou àquilo que havíamos aprendido de Deus e depois
submetido à Igreja. De modo que, viver esta palavra equivalia a viver todas as
outras, como as palavras que pedem para fazer a vontade de Deus, ou amar a Deus
ou ao próximo. Por isso, tudo ia se tornando mais simples.
A esta altura, poderia parecer supérfluo continuar este
costume de focalizar em cada semana uma palavra; todavia ‑ e esta pode ser uma
experiência de todos, se correspondermos à graça ‑ Deus trabalha as almas ‑ e
às vezes manda tão sublimes dons de luz que se tem a impressão de receber uma
compreensão mais profunda do Evangelho.
Sob
a influência destas graças, descobre‑se no Evangelho, por exemplo, que toda a
vida de Jesus está orientada ao Pai. E então se lê o Evangelho com um novo
interesse e se orienta a nossa vida também naquela direção.
Podem ainda sobrevir graças de trevas escuras como o inferno,
onde se duvida de tudo. E a maior dúvida é contra a lógica do Evangelho.
Dizemos a nós mesmos - ou melhor, alguém com uma luz diabólica nos insinua: ‑ Se
voltar a amar, você verá novamente, E então entrará outra vez no sistema, na
vida sobrenatural, que por sua vez será um perigo para a sua liberdade;
portanto: Detenha‑se. Não ame e você será você mesmo... O demônio faz de tudo
para que não amemos. Mas, se resistirmos e fizermos exatamente o contrário
daquilo que a tentação sugere, eis que se abrirá diante dos olhos da alma uma
visão ainda mais profunda do Evangelho, Então descobri‑lo‑emos como o único
Livro da Vida, entendendo que jamais conseguiremos compreender – “qual é a
largura e o comprimento, a altura e a profundidade...” da palavra... Deste modo,
o Evangelho permanece o livro eterno do nosso alimento espiritual.
Passemos a outro aspecto.
A palavra de Deus! A palavra de Deus não é como as
outras. Ela não só pode ser ouvida, como também tem o poder de atuar aquilo que
ela exprime.
E, já que a palavra é Cristo,
gera Cristo na nossa alma e nas almas dos outros.
Mesmo
antes de viver a palavra, se somos cristãos, a graça habita em nós, a vida de
Cristo habita em nós e com ela temos, sem dúvida, a luz de Deus, e o amor, mas
um tanto fechados, como numa crisálida. Vivendo o Evangelho, o amor irradia a
luz e a luz aumenta o amor. A crisálida começa a se mover até que dela sai a
borboleta. A borboleta é o pequeno Cristo que começa a tomar lugar em nós e
depois vai crescendo cada vez mais, cada vez mais... de tal modo que nos
plenificamos sempre mais dele.
E isto que nos
ensina o nosso Ideal. É isto o que pretende fazer a palavra de Deus em nós:
formar o Cristo desde agora, de maneira que a preparação para a outra vida nada
mais seja que o ponto culminante de uma vida vivida em função daqueles dias,
daquela hora, da Vida verdadeira.
Que a palavra gera Cristo em nós, muitos o dizem: os Papas, os Santos, os
Padres da Igreja.
Existe uma esplêndida descrição do papa Paulo VI sobre os efeitos da
palavra e a maneira como deve ser acolhida. Ele chega até a sugerir um método,
que é o mesmo do nosso Movimento. Diz o papa: “...Como Jesus se faz presente
nas almas? Através do veículo que é a comunicação da palavra, passa o
pensamento divino, passa o Verbo, o Filho de Deus feito Homem. Poder‑se‑ia
dizer que o Senhor se encarna dentro de nós quando aceitamos que a sua palavra
venha viver dentro de nós. Ouvindo as explicações do Evangelho, seja assíduo o
de cada cristão o de apropriar‑se pelo menos de uma preciosa noção; e, voltando
para casa, durante toda a semana, nutrir‑se de tão substancioso alimento
espiritual: a palavra do Senhor...
Portanto,
antes de tudo, ouvir; depois, conservar. É necessário não apenas um ato passivo
de aceitação, mas também uma reação ativa, um ato reflexo. Deve-se meditar.
Existe
um terceiro momento. A palavra deve se transformar em ação e guiar a vida. Ela
deve ser aplicada ao nosso estilo, ao nosso modo de viver, de julgar e de
falar... De tal maneira, a vida cristã se revela sobremodo atraente...”
E é esplêndido o conceito
que Santo Inácio de Antioquia tem da palavra.
Ele sente que nós ‑ tendo saído da mente de Deus ‑ estamos
destinados a voltar como Palavra de Deus. Escrevendo aos seus, para que
não lhe impedissem o martírio, dizia: “Não quero que vocês procurem o que
agrada ao homem, mas aquilo que agrada a Deus, por quem vocês são recebidos com
prazer. E eu não terei mais uma ocasião como esta para alcançar a Deus... Se
vocês se calarem (se me deixarem ir ao martírio) eu me tornarei palavra de
Deus”.
E
São Tiago apóstolo afirma: “Por vontade própria Deus nos gerou pela Palavra da
verdade, a fim de sermos como que primícias dentre as suas criaturas”.
Há também uma frase de
Jesus no Evangelho que faz pensar. Quando os apóstolos se aproximam dele e lhe
dizem que sua mãe e seus irmãos estão à sua espera, ele responde: “Minha mãe e
meus irmãos são todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”.
Portanto, existe uma possibilidade admitida por Jesus de sermos, de algum modo,
sua mãe. Sim, ele mesmo o disse.
Nós podemos gerar Cristo
nas almas, como uma mãe gera, justamente através da palavra .
Também São Gregório Magno afirma que podemos ser mãe de
Jesus: .”Devemos saber que, quem é irmão e irmã de Jesus pela fé, toma‑se mãe
por obra da palavra. Se alguém, com sua palavra, faz nascer o amor, do Senhor
na alma de um próximo, ele como que gera o Senhor, porque o faz nascer
no coração de quem ouve a sua palavra, e se toma mãe do Senhor”.
Do
mesmo modo, São Paulo, em virtude da palavra semeada no coração dos ateus,
sente fortemente que se tomou pai deles: “Ainda que tivésseis dez mil pedagogos
em Cristo, não teríeis muitos pais, pois fui eu quem pelo Evangelho vos gerou
em Jesus Cristo”.
Santo
Agostinho vê as Igrejas geradas pela palavra de Deus: “Os próprios apóstolos,
sobre os quais a Igreja foi fundada, seguindo o exemplo de Cristo pregaram a
palavra da verdade e geraram as Igrejas”.
A Igreja, pois, é gerada precisamente mediante o
anúncio da palavra. E, por sua vez, a Igreja é mãe e gera as almas através da
palavra que doa e pelo batismo.
0 mesmo podemos afirmar com relação à nossa
Obra. Ela foi gerada pela palavra que Jesus semeou em nosso coração, e é por
sua vez mãe de muitas almas, porque as gera, depositando no coração dos homens
a palavra, que não é um simples conceito, mas, espírito e vida
A palavra de Deus,
portanto, gera Cristo nas pessoas, nas comunidades, nas Igrejas.
Por isto, Clemente Alexandrino podia dizer: “....quem obedece ao Senhor e por
meio dele segue a Escritura que nos foi dada, se transforma plenamente conforme
a imagem do Mestre. Chega a viver como Deus encarnado. Mas, esta altura não
podem atingir aqueles que não seguem a Deus que conduz. E ele conduz pelas
Escrituras divinamente inspiradas”.
Colocar‑se em contato
com a palavra de Deus é, portanto, colocar‑se em contato vital com Cristo, é
observar a sua vida. Por isso, fazendo eco ao Cântico dos Cânticos: “Beija‑me
com um beijo da sua boca”, podemos afirmar: toda vez em que vivo a palavra é
como se desse um beijo na boca de Jesus, aquela boca que diz somente palavras
de vida. Ele, que é Palavra, comunica‑se à nossa alma. E nós somos um com Ele!
E nasce Cristo em nós.
E também esta a
opinião de São Gregório Niceno: “Ora, a fonte é a boca do Esposo, de onde,
emanando as palavras de vida eterna, enchem a boca de quem as atrai ... É
preciso, pois, que aproxime a boca da água quem deseja conseguir a sua bebida
na fonte. Ora, a fonte é o Senhor que disse: “Se alguém tem sede, venha a mim e
beba” e é por isso que a alma quer
aproximar a boca da boca de onde brota a vida, dizendo: “Beija-me com o beijo
da tua boca”, e aquele que tem esta fonte para todos, e quer que todos sejam
salvos, não deixa que nenhum daqueles que se torna purificação de qualquer
mancha.
Depois de tudo o que
foi dito sobre a palavra de vida, só nos resta tirar uma única conclusão: Quanto
tempo de vida ainda teremos? No momento presente vivamos a palavra com
aceleração crescente, a fim de que também nós sejamos, para o mundo e para a
glória de Cristo, um Deus encarnado.
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