22 janeiro 2017

Razão

Cada um, dentro do "seu" ponto de vista, tem razão.
Eu, dentro do meu ponto de vista, tenho razão.
Você, dentro do "seu" ponto de vista, tem razão.
Seu vizinho, dentro do ponto de vista "dele" tem razão. 
Sua mulher, filhos e filhas, dentro do ponto de vista "deles" tem razão.
Sendo assim, dentro do "nosso" ponto de vista, todos temos razão. Mas, então, se todos temos razão, está instaurada a desordem... afinal, temos razão...
Qual o verdadeiro ponto de vista da razão?
É SOMENTE aquela criada pelo AMOR.
Se eu tenho razão,  dentro da minha concepção e você também tem razão, na sua concepção, podemos gerar a desordem. Se eu amo e você ama, perdemos nossas razões e construímos a razão de Deus. Aquela que realmente importa. Geramos assim a razão da unidade e a ordem se instaura.
Somente no amor, podemos ter razão para qualquer coisa.

Eli, Eli, lemá sabactáni

"Eli, Eli, lemá sabactáni” (Mt 27,46). Foi a frase que Jesus gritou em seu abandono, na língua falada por Nossa Senhora.

Quanto nos diz aquele teu grito, soltado na língua de tua Mãe!… Quando a dor atinge aquele limite em que toda a vida permanece suspensa… então, se resta um fio de voz, chama-se a mãe, porque a mãe é o amor.

Tu, porém, como Filho de Deus, o amor o possuías em Deus, e Deus chamaste. E, como homem, o amor o possuías também em tua Mãe celeste. Na impossibilidade de invocar os dois, chamaste o Pai com a fala da Mãe.

Quão belo és naquela dor infinita, Jesus Abandonado!

21 janeiro 2017

Com coração de mãe

Façamos este propósito: vou comportar-me com todas as pessoas
de quem me aproximar, ou para quem trabalhar, como se fosse a mãe
delas.
 A mãe sempre acolhe, sempre ajuda, sempre espera, tudo cobre.
A mãe perdoa tudo ao filho, mesmo que ele seja um delinquente ou
um terrorista.
 De fato, amor de mãe é muito semelhante à caridade de Cristo, de
que fala Paulo2.
 Se tivermos um coração de mãe ou, mais especificamente, se nos
propusermos a ter o coração da Mãe por excelência, Maria, estaremos
sempre prontos a amar os outros em todas a circunstâncias.
 Amaremos a todos e não apenas aos membros da nossa Igreja,
mas também aos membros das outras. Não apenas os cristãos, mas
também os muçulmanos, os budistas, os hinduístas etc. Inclusive os
homens de boa vontade, inclusive cada homem que vive na terra.
Porque a maternidade de Maria é universal, como universal foi a
Redenção.

20 janeiro 2017

Tropeço

"Levante todos aqueles que estiverem caídos em seu redor. Você não sabe onde seus pés tropeçarão".

Estas palavras de André Luís nos alertam quanto ao dever de ajudar a todos os que caem, não só física, como moralmente.

Não critique quem cair.

Ajude-o a erguer-se, tal como você gostaria que fizessem com você, se estivesse no mesmo caso.

19 janeiro 2017

Caminho de santidade


      DEVEMOS TORNAR-NOS SANTOS, porque Jesus é santo. E nos tornaremos santos vivendo a Palavra. Aliás, sabemos que, quem vive a Palavra, pelo menos no momento em que a vive, já é santo. “Quem ouve a Palavra” – disse Jesus – (ou seja, quem a acolhe no próprio coração e a pratica) “já está puro” (cf. Jo 15,3).
      PARA CAMINHAR, temos a Palavra de Vida, que é “lâmpada para os meus passos” – diz um salmo – e “luz para o meu caminho” (Sl 119[118],105).
      É a Palavra que nos poderá levar à feliz conclusão de um bom caminho, que nos fará alcançar a santidade.
      CAMINHAMOS como aqueles que não sabem aonde ir, e temos nas mãos – basta querer – o código da vida, de cada vida, que é o Evangelho.
      VIVAMOS a Palavra de Deus tão radicalmente, a ponto de ela destruir nosso eu, anular nosso egoísmo, pregar-nos na cruz com Cristo, de modo que não sejamos mais nós a viver em nós, mas que em nós viva a Palavra, que é Ele.
      DEUS QUER os frutos, os efeitos. É por isso que o grão de trigo morre, para produzir fruto. É por isso que a Palavra deve fazer que morramos para o nosso eu, para o nosso modo de pensar, de amar, de querer, a fim de assumirmos o modo de Cristo.
      A PALAVRA DE DEUS é vida, mas esta é conquistada passando-se pela morte. É ganho, mas obtém-se perdendo. É crescimento, mas alcança-se diminuindo (cf. Mt 10,38-39).
      Encaremos o risco da sua Palavra.
      “POR VONTADE PRÓPRIA, Ele nos gerou por uma palavra de verdade, a fim de sermos como que as primícias dentre as suas criaturas” (Tg 1,18).
      A Palavra de vida depura, e quem a vive, quem é a Palavra, já está mundificado, purificado. De fato, é transferido em Outro, está em Deus, Palavra. Está (a vida da Palavra em nós, nós, Palavra viva) regenerado, ou seja, filho de Deus.
      SENHOR, percebemos que há em nós muitos defeitos. Mas temos a alegria de saber com segurança que “ser a tua Palavra viva” tira de nós toda escória, faz-nos sair renovados, momento a momento, como uma noz, da casca.
      “Ser a tua Palavra” significa ser um outro, fazer a parte do Outro que vive em nós: encontrar nossa liberdade na libertação de nós mesmos, dos nossos defeitos, do nosso não-ser.


18 janeiro 2017

A Vontade de Deus

Como responder com o amor ao Amor de Deus?

Na nossa mente se fixou a frase: "Não quem diz: Senhor, Senhor entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai..." (Mt 7,21). 

Portanto fazer a vontade de Deus é amar Deus. 

Não significa "resignação", como muitas vezes se entende, mas a maior aventura divina que pode acontecer a uma pessoa; a de seguir não a própria vontade mesquinha, não os próprios projetos limitados... 

Realizar o desígnio que Ele tem para cada um de seus filhos, um desígnio divino, inimaginável, riquíssimo. 
A vontade de Deus é a pérola preciosa.

É a descoberta de um caminho de santidade feito para todos.

Todos a podem viver, em qualquer lugar, situação, vocação.

É o bilhete de ingresso das multidões à santidade. 

17 janeiro 2017

A vinha de Jesus Abandonado


 “A minha vinha, somente minha, está diante de mim” (cf. Ct 8,12).
 Sempre vimos a Obra de Maria como a vinha de Jesus Abandonado.
 E agora me volta à mente um pensamento.
 Após cinqüenta e seis anos de vida do Movimento, posso contemplar
os seus ramos, as suas parras, lançados em toda a terra, e os cachos
suculentos que nutrem continuamente um povo novo.
 Lembro-me das palavras que li com as minhas companheiras, talvez
ainda em 1944, na festa de Cristo Rei: “Pede, e eu te darei as nações
como herança, os confins da Terra como propriedade” (Sl 2,8).
 Pedimos com fé naquela vez. O Movimento chegou realmente aos ú
ltimos confins da Terra. E nesse “povo novo” estão representados os
povos da Terra inteira.
 Em um número tão grande que o auspício do meu bispo em 1956,
de que já falei, “Oxalá os focolarinos fossem legiões!”, agora é uma
realidade. Ele, que esperava ganhar o Paraíso também por ter apoiado
os focolarinos, está constatando isso lá do Alto.
 Qual o meu último desejo agora, e por enquanto? Quisera que a
Obra de Maria, no final dos tempos, quando estiver à espera de
comparecer perante Jesus Abandonado-Ressuscitado, em bloco,
pudesse repetir-lhe — fazendo eco às palavras do teólogo belga Jacques
Leclercq, que sempre me comovem:
 No teu dia, meu Deus, caminharei em tua direção… Caminharei em
tua direção, meu Deus […] e com o meu sonho mais desvairado: levar
para ti o mundo em meus braços. (apud Mühs, 1998, p. 64) “Pai, que
todos sejam um!”

16 janeiro 2017

Como o Criador

A fé no amor que Deus faculta às suas criaturas, fé típica de nós, cristãos, descobrimo-la em muitos irmãos e irmãs de outras religiões, a começar pelas abraâmicas, que afirmam a unidade do gênero humano, o zelo que Deus dispensa a toda a humanidade e a obrigação de cada criatura humana de agir como o Criador, com imensa misericórdia por todos.

Reza um provérbio muçulmano: “Deus perdoa cem vezes, mas reserva a sua suprema misericórdia para aquele cuja piedade poupou a menor de suas criaturas”3.

Que dizer da compaixão sem limites por todos os seres vivos que Buda ensinou, aconselhando seus primeiros discípulos: “Ó monges, deveríeis trabalhar pelo bem-estar de muitos, pela felicidade de muitos, movidos de compaixão pelo mundo, pelo bem-estar dos homens”?4
Portanto, amar a todos. É um princípio universal. Sentido pelos seres humanos de qualquer época, e debaixo de qualquer céu.
     
       
          1 Ou seja, para a realização do que Jesus pediu ao Pai na última ceia: “ut omnes unum sint, sicut tu, Pater, in me et ego in te” (“a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti”; Jo 17,21). [N.d.E.]
          2 Cf. 1Cor 13,1-13.
          3 Cf. GUZZETTI, G. M. Islam in preghiera. Roma : Elle Di Ci, 1991, p. 136.
          4 Mahagga, 19.

15 janeiro 2017

Não ter pensamentos

Porque somos filhos de Deus, devemos ter a mente livre, “despreocupada”. Os filhos de Deus não têm preocupações, pensamentos. Só quando não tivermos pensamentos (isto é, quando formos desapegados do nosso modo de pensar), nossa mente estará aberta por inteiro e receberá a constante Luz de Deus. E será um canal.

Assim, devemos ser sem vontade (vontade nossa no sentido possessivo da palavra), para ter a capacidade da vontade de Deus.

E sem memória, para lembrar apenas o momento presente e viver “extáticos” (fora de nós).

Sem fantasia, para ver o paraíso também com a fantasia, porque o paraíso é o Sonho dos sonhos.

14 janeiro 2017

A despeito de mim

Como se eu procurasse não aproveitar a vida imediatamente, 
mas só a mais profunda, o que me dá dois modos de ser: 
em vida, observo muito, sou "ativa" nas observações, tenho o 
senso do ridículo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido. 
Escrevendo, tenho observações "passivas", tão interiores 
que "se escrevem" ao mesmo tempo em que são sentidas quase 
sem o que se chama de processo. É por isso que no escrever 
eu não escolho, não posso me multiplicar em mil, 
me sinto fatal a despeito de mim

13 janeiro 2017

Terra Santa: uma amiga judia do outro lado do muro



Vera Baboun, prefeita cristã de Belém, fala do seu compromisso em política, motivado por uma forte carga espiritual pelo bem do seu povo.


«Conheci Bella, uma mulher judia, num centro dos Focolares em Jerusalém. Contei-lhe a história do meu marido torturado numa prisão israelense. Ela me escutou, embora eu tenha notado um certo conflito interior. Estava diante de uma encruzilhada. Ser israelense e por isso rejeitar tudo o que eu lhe contava, ou sentir compaixão dos fatos que me aconteceram. Num primeiro momento ela não conseguiu me aceitar e saiu da sala onde estávamos nos encontrando. Eu a segui e lhe disse que sentia muito tê-la ofendido. Bella me explicou que não era minha culpa, mas do sistema. Então lhe pedi que voltasse atrás (se emociona, ndr). Assim nasceu a nossa amizade. Um muro separa a minha cidade, Belém, da sua, Jerusalém. Mas, entre nós duas, muros não existem mais. Rezo a fim de que muitos judeus de Israel possam olhar para a nossa amizade. Bella vive o espírito dos Focolares, no sentido de que somos todos filhos de Deus e é só o amor e a compaixão que nos leva a viver juntos. Nós, homens, construímos o muro ao redor de Belém, não se pode construir sozinho. Deus nos deu a liberdade de construí-lo ou de abatê-lo. Inclusive dentro de nós».
Assim responde Vera Baboun, primeira mulher e primeira cristã católica a se tornar prefeita de Belém, à pergunta se seria possível instaurar uma verdadeira amizade entre palestinos e israelenses. A ocasião para encontrá-la é dada pela outorga do 7º “Prêmio Chiara Lubich, Manfredônia, cidade pela fraternidade universal”, em março de 2016.

Belém é uma Cidade da Cisjordânia, do Governatorato de Belém da Autoridade Nacional Palestina. Quarenta habitantes, dos quais 28% cristãos, 72% muçulmanos. É a cidade onde nasceu Jesus, a cerca de 10 km ao sul de Jerusalém. A igreja da Natividade, em Belém, é uma das mais antigas do mundo. Todavia «o muro condiciona inclusive a nossa fé, porque desde crianças estávamos habituados a visitar os lugares originários de Jesus. Existe toda uma geração de jovens palestinos cristãos que nunca rezou no Santo sepulcro de Jerusalém», declara ainda Vera Baboun. «Somos a capital da natividade, celebramos e enviamos ao mundo uma mensagem de paz, enquanto em Belém falta justamente a paz. Após 40% de cancelamentos deste ano, decidimos com o conselho municipal, diminuir as taxas em 80%, sobre as licenças e sobre as propriedades para quem vive e trabalha na área turística. Fizemos isto para sustentá-los, mesmo se isto significa um empobrecimento de recursos para o município. Mas a nós, quem nos sustenta? Quem sustenta a nossa dupla identidade? Aquela cristã universal e a palestina».
Mas quem a permite agir assim? «Só o amor de Deus. Percebo isto de modo muito forte. Não me importa nada o poder, a fama; para mim, exercer o trabalho de prefeita é um peso que me custa não pouco. Após a morte do meu marido e depois de ter trabalhado toda a vida na educação, decidi tomar o lugar do meu marido porque ele se comprometera politicamente pela libertação da Palestina».
Frequentemente a senhora declarou: «Será que o mundo poderá viver em paz enquanto a cidade da paz estiver murada?»… «Enquanto a cidade de Belém estiver murada, haverá um muro ao redor da paz. Estamos sob assédio. E para o mundo é melhor trabalhar para libertar a paz, não só para Belém, mas para nos libertar do sentido do mal, do uso da religião como máscara para cobrir perversidades e guerra».
Entrevista organizada por Aurélio Molé para Città Nuova (cfr. Città Nuova n. 5 – maio de 2016)

12 janeiro 2017

Não humilhar ninguém

Lembre-se de que não devemos humilhar ninguém.

Os erros que os outros cometem hoje, nós podemos cometê-los amanhã.

Não se julgue inatingível nem infalível. Todos podem falhar.

Trate os outros com tolerância, para que possa reerguê-los, se errarem.

A perfeição não é desta terra. Não exija dos outros aquilo que você também ainda não pode dar.

11 janeiro 2017

A moeda em circulação hoje

Das respostas aos religiosos e sacerdotes de Loppiano
 Você ressalta muito o amor mútuo e nos convida insistentemente a vivê-lo. Por quê?
 Porque prezo muito isso. Penso que o Mandamento Novo é o coração da espiritualidade do Movimento dos
Focolares, porque tenho a impressão de que tudo converge para o Mandamento Novo. Inclusive o restante da
espiritualidade, tudo existe para poder realizar bem o Mandamento Novo. Passemos brevemente em revista os pontos
da espiritualidade: os senhores verão que é assim.
 Deus Amor, porque é amor, é Trindade, é amor mútuo: Deus é o modelo do amor mútuo.
 Depois, o segundo ponto é a vontade de Deus. Nós descobrimos – mas porque o Espírito Santo fez com que descobrí
ssemos – que existe alguma coisa que é particularmente querida a Deus, a Jesus e, portanto, lhe importa, é justamente o
Mandamento Novo, seu e novo.
 Depois, o amor pelo próximo: é o caminho para chegar ao amor mútuo.
 Outro ponto é o amor mútuo: é o amor mútuo.
 A unidade é o efeito do amor mútuo.
 Jesus no meio é o fruto do amor mútuo.
 Jesus Abandonado é o meio para ter o amor mútuo.
 Jesus Eucaristia é o vínculo da unidade.
 A Igreja é o ambiente do amor mútuo.
 A Palavra de Deus é essencial para um amor mútuo divino, destilado, como Deus o concebe, porque sem a
humildade, sem a paciência… não existe amor verdadeiro.
 Depois, temos Maria, que é o exemplo típico do amor mútuo. […] Nossa Senhora fez a sua parte porque, para amar
segundo o amor mútuo, é necessário amar com a medida de Jesus. E, aos pés da cruz, ela atingiu essa medida. Com a
sua desolação, viveu o abandono. Perdendo Jesus, perdeu Deus, de certo modo. […]
 O Espírito Santo é justamente a expressão do amor mútuo em Deus.
 Além disso, vejo os efeitos. Se vivemos o amor mútuo, os efeitos são extraordinários; se não vivemos o amor mútuo,
tudo esmorece.
 Tenho a impressão de que o amor mútuo é como a moeda corrente de hoje, e quem não vive o amor mútuo tem
uma moeda fora de circulação, de outras épocas. […]
 Então, por que ressalto isso? Oh! Sou fixada no amor mútuo, sou fixada, mas me parece uma fixação do Espírito
Santo: ͞Mira lá [ao amor mútuo], nele morrem todos os ͚homens velhos͛, com ele você renova a Igreja, com ele você
reforma as estruturas͟. Sim, sim, absolutamente, sobre isso falarei ainda e falarei muito, até me certificar de que os
cristãos estão resplandecentes, luminosos.

10 janeiro 2017

Não se pode amar a dor


Como devemos nos comportar quando surge uma dor? É possível amar a dor? 
 A dor não pode ser amada em si mesma, porque é um não-ser: a doença é a não-saú
de; a dor, angústia são a não-alegria. A dor é sempre uma negação de algo. 
 Quem deve ser amado é Jesus crucificado e abandonado, que está presente em 
qualquer sofrimento e em cada pessoa que sofre. 
 Conta-se que santa Catarina de Sena, quando era ainda menina, fazia muitas obras 
de caridade. Certo dia, porém, ao encontrar um pobre, obrigada a responder-lhe: «Não 
tenho nada». No entanto, em seguida se lembrou de que carregava uma correntinha no 
pescoço. Tirou-a e deu-a ao pobre. 
 Durante a noite apareceu-lhe Jesus com uma cruzinha maravilhosa na mão, toda 
incrustada de pedras preciosas, e disse: «Conheces esta cruzinha?» 
 «É aquela que me deste ontem, na pessoa daquele pobre», acrescentou Jesus. 
 Jesus escondera-se na figura do pobre, como se esconde na figura do faminto, do 
sedento, do desnudo... E não só na figura do irmão, mas também em nós; se estamos 
doentes, por exemplo, Jesus está presente. E o que for feito a nós, nessa ocasião, será 
 Portanto, como devemos nos comportar quando a dor se apresenta? Deve-se ir ao 
fundo do coração e dizer: «Jesus, eu quero seguir-te, mesmo na cruz, mesmo abandonado, 
e esta é a oportunidade. Ofereço-te esta dor, estou feliz por ter esta dor para te doar». 
 E, em seguida, nos lançamos no amor ao próximo, ou continuamos a fazer alguma 
Em geral, se forem sofrimentos espirituais, passam; e assim podemos de novo retomar 
a caminhada da vida na paz e na alegria. 

09 janeiro 2017

A Tua tática é uma só

Observei que a tua tática é uma só mas não monótona, talvez porque o teu 
agir és Tu, Senhor. 
Tu és o Amor sempre novo. E a tua tática e esta: quando as 
almas se contentam com sombras não falo de sombras efêmeras — isto é, 
quando a vida é para ti, mas não contigo identificada, mandas freqüentemente 
Então, a alma a ti retorna e profere o seu “sim”. Mas, ás vezes, este sim 
está perfumado por um sentimento de gratidão profunda e imerso numa prece 
singular: «Sim, Senhor, encontrando a cruz, nela te encontro. Obrigado por me 
teres reconduzido a ti, e não somente ao que a ti se refere, pois, mais do que 
tudo, atrai-me a solidão contigo, aquela mesma que enfrentarei, forçosamente, no 
dia do encontro, se não a tiver escolhido agora com o amor. 
E Tu, que tudo Podes. faze que eu consiga em teu nome este colóquio 
contínuo entre ti em mim e ti mesmo. em que eventos, homens e coisas são 
apenas combustível para o nosso puro amor». 
Só esta é vida verdadeira. porque centelha de ti. vida sem engano. sem 
desilusão. sem trégua e sem ocaso. 

08 janeiro 2017

Intensidade

Viva a sua vida interior com mais intensidade, porque Deus está permanentemente dentro de você, apesar de suas imperfeições e defeitos.

O Pai habita em todas as coisas criadas, chamando todas as criaturas para o caminho da justiça, da virtude, do amor.

Ninguém pode destruir esta verdade: Deus está dentro de você.

Saiba descobri-lo e terá conquistado a felicidade.

07 janeiro 2017

Meus atos

Cada um de nós é responsável por seus atos.

Por que vai desanimar, pelo que os outros fizeram a você? Que tem você a ver com isso?

Siga à frente, ainda que o mundo inteiro esteja contra você.

Você há de vencer, mesmo que fique sozinho.

Continue sem desânimo, porque você é o único responsável por seus atos.

06 janeiro 2017

Conselhos

Os conselhos ajudam, não há dúvida.

Mas não se esqueça de que a solução de nossos problemas está dentro de nós mesmos, na voz silenciosa de nossa consciência, que é a voz de Deus dentro de nós.

Não se deixe enganar: só você será o responsável pelo caminho que escolher.

Ninguém poderá prestar contas por você.

Procure, portanto, viver acertadamente, de acordo com sua consciência.

05 janeiro 2017

Assim mesmo

“Muitas vezes as pessoas

são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil,
as pessoas podem acusá-lo de interesseiro.
Seja gentil assim mesmo.

Se você é um vencedor,
terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco,
as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto e franco assim mesmo.

O que você levou anos para construir,
alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.

Se você tem paz e é feliz,
as pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz assim mesmo.

O bem que você faz hoje,
pode ser esquecido amanhã.
Faça o bem assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você,
mas isso pode não ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja você que, no final das contas,
é tudo entre você e Deus.
Nunca foi entre você e os outros.”

04 janeiro 2017

Em toda parte

Deus está em toda parte ao mesmo tempo, ao redor de você, dentro de você!

Jamais você está desamparado. Nunca está só.

Não permita que a mágoa o perturbe: procure manter-se calmo, para ouvir a voz silenciosa de Deus dentro de você.

Assim, poderá superar todas as dificuldades que aparecerem em seu caminho, e há de descobrir a Verdade que existe em todas as coisas e pessoas.

03 janeiro 2017

Filiação Divina

Não perca de vista sua filiação divina.

Deus é pai de todas as crianças e vive dentro de cada um de seus filhos.

Todas as criaturas são irmãs.

As diferenças raciais e religiosas são apenas de superfície.

Olhe para todos como templos vivos da Divindade, e ame a Deus através do amor às criaturas, procurando servi-lo, servindo ao seu próximo com amor e dedicação.

02 janeiro 2017

Trem bala


Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito
É saber sonhar
E então fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim
Por isso eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe
Pra perto de mim

Não é sobre tudo que o seu dinheiro
É capaz de comprar
E sim sobre cada momento
Sorrindo a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir...

01 janeiro 2017

Jesus no meio

Caríssimos,

Hoje refletiremos um pouco sobre aquele ponto que, de modo abreviado, definimos: "Jesus no meio". Sim, Jesus no meio, é efeito da unidade. Não é um mandamento, uma exortação, ou um conceito, uma normativa, mas é Ele, Jesus, uma Pessoa, que vive espiritualmente entre aqueles que estão unidos, pelo amor, no seu Nome.
Hoje em dia e no mundo em que vivemos temos contatos freqüentes com pessoas retas e boas, que não sentem, porém, a necessidade de ter uma fé. Certas até teriam esse desejo, mas submersas em um mundo que deveria ser cristão e muitas vezes não é, não têm a força para dar o passo e esperam, enfileirando-se com aquelas que se definem "em busca".
Esperam quem?
Talvez inconscientemente esperam encontrar-se um dia com Jesus.
É nessa ocasião, sobretudo frente a pessoas assim, que comprovamos a extrema atualidade, oportunidade e urgência da nossa espiritualidade e do ponto em questão: Jesus no nosso meio, o Ressuscitado.
Ele atesta, demonstra que não é uma realidade somente do passado, mas é Aquele que, mantendo a sua promessa: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt 28, 20), está presente, vivo, luminoso, cheio de amor, também hoje entre os irmãos.
Gerar a presença de Jesus no nosso meio é um nosso grande dever. Isso é possível se atuarmos os seus mandamentos, que se resumem no Mandamento Novo vivido segundo o modelo de Jesus Abandonado.
Viver, porém, os seus mandamentos, como Jesus disse, é carregar um peso leve e suave (cf. Mt 11, 30). Sem dúvida, é um peso que humilha o nosso "homem velho", mas não é pesado, aliás, é leve. É mesmo assim.
Mas pode ser sempre assim?
Geralmente sim. A condição é sermos dois ou mais unidos no seu Nome.
E quando estivermos sozinhos? Ou se os outros não compreendem o nosso amor?
Nós sabemos que, abraçando Jesus Abandonado em tais circunstâncias, conseguimos estar de pé, na paz e também na alegria, e podemos trabalhar, rezar, estudar, viver com a plenitude no coração.
No entanto, podemos vivenciar momentos em que nos parece difícil definir leve e suave o peso do Senhor.
Em certos períodos, por exemplo, podemos perder a saúde e isso influencia também o espírito, fazendo-nos fechar em nós mesmos, tornando-nos quase incapazes de nos relacionarmos com os irmãos.
Ou vivemos momentos em que temos que guardar certos segredos que nos preocupam, os quais desejaríamos comunicar para desabafar, mas não podemos. São relativos a nós mesmos - como provações interiores - ou a outras pessoas, tal como fatos tristes e delicados que nos foram confiados em segredo.
Ou chegam períodos em que somos alvo de tentações que podemos comunicar somente ao confessor. Ou são mortes repentinas, acidentes imprevistos que nos abalam profundamente e nos parece difícil que alguém compreenda. Ou aparecem os sintomas de uma doença, que pensamos ser mortal... Ou... ou...
São circunstâncias dolorosas permitidas por Deus para esculpir a nossa alma com o instrumento do qual, no cristianismo, não se pode prescindir e que Jesus também experimentou: a cruz.
Como devemos nos comportar em meio a tais dificuldades?
Tentando nos alegrar, pelo menos com a vontade, por sermos um pouco semelhante a Ele, abandonado, lançando cada preocupação no coração do Pai (cf. 1 Pd 5, 7). Permanecendo numa estável atitude de oferta, ajudados pela graça do momento, que não faltará, enquanto Deus não restituir plenamente a serenidade à nossa alma provada.
Recordando-nos, porém, que devemos amar sempre os irmãos como pudermos e quanto pudermos, abrindo-nos com eles pelos menos de modo vago, dizendo por exemplo: "Estou passando por uma provação...". Comunicá-lo por amor para que não falte a comunhão. A abertura é também o melhor tonificante em cada situação.
Assim, Jesus entre nós, se não deixarmos de gerá-lo - como dizia Paulo VI[1] -, nos fará vir à tona também nesses momentos e nos demonstrará que, sempre e de qualquer forma, o seu peso pode ser leve e suave.
Neste ano, em que aprofundaremos a realidade de Jesus no meio, façamos de tudo para tê-lo sempre entre nós.
Será um exercício útil para demonstrar que Ele pode estar presente entre nós ao longo de toda a nossa vida.                                                                                              



[1].         Insegnamenti di Paolo VI, Poliglota Vaticana, 1965, II, pág. 1072-1074.

31 dezembro 2016

Vida trinitária


      No Movimento, desde os primórdios tínhamos entendido que a fidelidade ao amor mútuo, vivido segundo o modelo de Jesus crucificado e abandonado (eis aí o “como”!), desembocaria na unidade segundo a vida da Santíssima Trindade.

      “Sabe até que ponto nos devemos amar?” — perguntamo-nos um dia, sem que, até então, tivéssemos conhecido o Testamento de Jesus — “Até nos consumarmos em um.” Como Deus, que, sendo Amor, é Trino e Uno.

      É exatamente “a lei do Céu” — escrevi eu então — “que Jesus trouxe à terra. É a vida da Santíssima Trindade que nós devemos procurar imitar, amando-nos entre nós, com a graça de Deus, como as pessoas da Santíssima Trindade se amam entre si”.

      E o dinamismo da vida intratrinitária é o mútuo e incondicional dom de si, é a total e eterna comunhão (“Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu” [Jo 17,10]) entre Pai e Filho no Espírito.

      Portanto, percebemos que Deus imprimira no relacionamento entre os homens uma realidade análoga. “Senti” — escrevíamos ainda — “que fui criada como um dom para quem me estava próximo e quem me estava próximo foi criado por Deus como um dom para mim. Como o Pai na Trindade está todo para o Filho e o Filho está todo para o Pai.” E “a relação entre nós é o Espírito Santo, a mesma relação que existe entre as Pessoas da Trindade”.



30 dezembro 2016

O primeiro dever

      De uma conferência telefônica

      Castel Gandolfo, 29 de abril de 1999

      Um dia, eu, como espero outros, havia-me proposto, como Jesus diz e quer, a “rezar sempre” [cf. Lc 18,1], oferecendo a Ele cada ato, precedido por um “Por ti”. Com a graça de Deus, tinha sido particularmente fiel a esse compromisso. De modo que, como conclusão do dia, perguntei a Deus numa conversa com Ele se estava satisfeito comigo ou, caso não estivesse, que me corrigisse.
      Tive a impressão de perceber a sua resposta no fundo do coração, que pode ser expressa assim: “O teu modo de viver hoje, oferecendo a Deus cada ato teu com um ‘Por ti’, foi sem dúvida do meu agrado, mas poderia ser muito bom também o modo de qualquer um que segue uma espiritualidade individual. Tu és chamada para outra coisa. De ti, quero algo diferente. Tua vocação requer que coloques, acima de tudo, como base de cada ação tua, embora oferecida com um ‘Por ti’, o amor mútuo com tuas irmãs e teus irmãos. Por isso, tua primeira obrigação deve ser: estar sempre disposta a dar a vida por eles, para que a unidade triunfe”.
      Entendi a lição.
      Certamente, depois de tantos anos de vida espiritual, eu havia procurado, inclusive naquele dia, viver o Mandamento Novo, mas não como minha primeira obrigação.
      Então, procurei logo quem estava perto de mim, disposta a estar pronta a morrer também por ele, por ela e, portanto, a assumir todos aqueles comportamentos coerentes de modo a poder oferecer a Jesus, baseada unicamente nisso, cada ato com um ‘Por ti’.
      São mais de cinquenta anos que digo a mim mesma e digo a vocês que a “norma das normas”, portanto, também a regra básica para poder rezar, é a unidade.
      Mesmo assim, é necessário sempre reavivar no coração essa obrigação nossa, é necessário sempre recomeçar. […]
      Façamos todo o esforço para não esquecer isso, ou melhor, para não esquecer Aquele que deve preceder cada coisa. É Ele a grande novidade que somos chamados a oferecer ao mundo.
      Que honra poder viver essa vocação! Que plenitude de alegria!



29 dezembro 2016

O pão de cada dia

"O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.”      (Mt 6,11)      
 

Hoje. Tu queres mesmo que vivamos a teu modo, Senhor!       

Mas quem, no mundo, quem vive o hoje e só para o hoje, entregue ao futuro como os passarinhos livres, para os quais Tu provês o que comer e vestir?       

Viver para o hoje simplifica, mas também aterroriza o nosso ser humano, que preferiria entregar-se a um amanhã seguro. No entanto, o amanhã poderia não existir… e Tu, Senhor, nos queres vigilantes, pois nos chamarás a ti numa hora e num dia para nós desconhecidos, e não podes contradizer-te.       

Dá-nos, então, a graça de viver bem cada dia que dispuseste, pela vida que nos resta.


28 dezembro 2016

Deus

O Movimento começou com este grande nome que resumiu toda a sua vida: Deus!
Deus – a Trindade – mostrou-me como o sol no alvorecer de um mundo que reencontrava a paz depois do fragor da guerra; e ofereceu a nós, seus filhos, uma vida mais divina do que aquela que já levávamos, mais cristãmente coerente, mais íntegra.
Outras jovens tinham sido chamadas, em lugares, tempos e circunstâncias diversas ao mesmo ideal. Entre estas recordávamos com freqüência Clara de Assis.
“ Filha, o que desejas?”  - perguntou-lhe Francisco quando ela, aos dezoito anos, fugira de casa para seguir o Senhor. “Deus!”  - respondeu.
Deus, esta única, infinita realidade, devia resumir também para nós, sob o impulso da graça, todas as nossas aspirações, num desejo ardente de sermos fiéis a ele por toda a vida, como foram os santos.
Deus, portanto, e nada mais, pois qualquer outra pessoa ou coisa teria diminuído o encantamento do chamado divino.
Deus, que para nós foi logo, desde o primeiro instante, sinônimo de amor: o Amor!
Assim o apresenta a Escritura: “Deus é Amor”.
Deus, tudo para nós. Deus Amor. Foi uma grande novidade  para a nossa rotineira vida espiritual, uma novidade tão grande que operou uma verdadeira conversão.
Antes, de fato, embora procurássemos ser boas cristãs e estar na graça de Deus, vivíamos como órfãs, como pessoas que tinham pai e mãe, mas... somente terrenos. Depois, tendo conhecido de um modo novo Deus Amor, sentimo-nos mais conscientemente filhas do Pai que está nos céus. E duma certa maneira pudemos repetir com Francisco de Assis: “ Não mais pai Bernardone, mas Pai nosso que estais nos céus”.
Ia-se delineando para nós uma relação entre céu e terra, um novo acorde entre filhos e Pai. Foi o desenvolver-se de uma nova fé. Não se tratava somente da fé no seu amor; por isso, nada nos parecia mais adequado para a vida que estávamos iniciando do que a frase: “E nós acreditamos no Amor”.  Esta fé no amor de Deus por nós, cada um de nós, por todos, pela humanidade inteira, iluminou toda a nossa futura existência.
Deus nos amava! Ele era o nosso criador. Era quem nos sustentava momento por momento. Ele o tudo!... Nós não teríamos nenhum sentido no mundo se não fôssemos uma pequena chama desta Chama infinita – amor que responde ao Amor.
E pareceu-nos tão sublime a dignidade a que nos elevara, tão alta e imerecida a possibilidade de ama-lo que repetíamos: “Não se trata de dizer: Devemos amar a Deus; mas: “Oh! Poder-te amar, Senhor... poder-te amar com este pequeno coração!”.
E nos esforçamos para ser coerentes. Com o passa dos dias, das semanas, dos anos, pareceu-nos que ele não quisesse deixar-se vencer em generosidade.
De fato, talvez porque, como afirma a Escritura,  “ a quem me ama, manifestar-me-ei”, aos poucos Deus foi-nos revelando os tesouros semeados por ele próprio aqui na terra, por amor a nós, e a sua presença única e multíplice neste lugar de exílio à espera do céu, presença que nos esclareceu sempre mais como é infinito o seu amor e como são inumeráveis os recursos da sua paternidade. Indicou-nos onde encontrá-lo, para nos assemelharmos a ele e de que maneira possuí-lo; em suma, indicou-nos de que modo e com que meios poderia nascer ou amadurecer a união das nossas almas com ele e dele com as nossas almas.
E não nos chamou para viver num mosteiro, nem em clausura, mas onde mais reina o príncipe do mundo e dominam as trevas: “Pai, não peço que os tires do mundo, mas que os preserves do mal”.
Descobrimos, então, como crianças ao abrir os olhos, que a vinda de Deus sobre a terra por nosso amor mudara radicalmente o mundo: ele tinha ficado.
Caminhando ou viajando, não éramos atraídas pelo que acontecia ao nosso redor embora bonito e interessante. A própria Roma, por exemplo, não nos atraía só por seus maravilhosos monumentos e pelas preciosas relíquias. Os eles que ligavam o nosso caminhar por ele no mundo eram Jesus nos tabernáculos que encontrávamos.
De tal forma que cada Igreja que víamos da janela de um trem se tornava “casa” para a nossa alma.
E quando tínhamos a possibilidade de visitar algum santuário, ou a Terra Santa, que viu nascer e morrer o Salvador – lugares estes que desejávamos nunca mais deixar – quem dava alento ao nosso caminhar era Jesus na Eucaristia, presente me todas as partes do mundo, presente da mesma maneira tanto na capela de uma aldeia como na majestosa catedral duma importante cidade: ele, luz aqui e ali acendida pelo seu amor; conforto para jovens, pobres e ricos, cultos e ignorantes: Irmão universal, o mesmo para todos, que enxugava as lágrimas, que revigorava os corações, que dava o seu Espírito aos que vivessem segundo a sua lei.
Não era, portanto, tão mau assim o mundo! Jesus Eucaristia tornava-o um enorme convento e se oferecia à fome de divino que pode surgir em cada um de nós.
            E ainda mais: cada irmão – a colega de classe, o mendigo, a mulher da feira, o deputado, a criança, o doente – sob a ação da graça, mudemos a reconhecer e amar em cada próximo um membro do Corpo místico, Cristo nele. E aconteceu então que todo aquele que podia impedir o caminho rumo a Deus se tornava uma porta para encontrá-lo.
Os livros santos tinham prometido: “ Passamos da morte à vida porque amamos os irmãos”. E quanto mais se amava Cristo em todos, com o despojamento de si mesmo, mais o coração se plenificava de divino; mais facilmente, à noite, durante a oração, o Senhor nos fazia senti a sua doce presença na alma. Esta foi uma experiência que nos fez entender o quanto é agradável a Deus a caridade e como o amor fraterno é a flor do Evangelho.
Havia também irmãos nos quais Deus não devia se apenas amado, mas também obedecido. Tratava-se de pessoas que de um modo especial  o representavam: os nossos superiores eclesiásticos, os bispos, os assistentes, escolhidos com mão amorosa pela Igreja. Eram os pastores e nós as ovelhas.
E o efeito nas nossas almas e em toda a Obra, produzido por este esforço de viver como filhos de Deus na Igreja, esposa de Cristo, como ramos junto à videira, foi este: com o tempo, pareceu-nos que a própria Igreja palpitasse nos nossos corações, capazes somente de sentir com ela e de participar das suas lutas e vitórias, desejosos até mesmo de derrama o próprio sangue, unicamente pelo triunfo da Igreja.
E depois: Deus no nosso meio. Durante os primeiros dias, quando nos esforçávamos por atua as palavras de Jesus: “Onde dois ou três estão unidos no meu nome, aí estou eu no meio deles”, parecia que  o céu nos envolvesse, que o paraíso estivesse no nosso meio. Jesus retornava espiritualmente entre nós, irmãos nele, e, como Emaús, acendia os corações com uma chama que o mundo não conhecia, fazendo empalidecer homens e coisas, pondo em evidência somente o que é grande, belo e bom perante Deus.
Jesus entre os cristãos nos parecia um templo que podia erguer as colunas – os corações dos seus filhos – em toda parte, e oferecer o bálsamo de um tabernáculo espiritual, tanto numa rua barulhenta como nas terras pagãs supersticiosas ou num cárcere de perseguição.
Jesus é sempre vida e plenitude, alegria e paraíso, guia e mestre – o nosso amor recíproco podia ser a poderosa causa que o O tornava presente. Dizíamos entre nós: ! Se colocarmos vários pedaços de madeira entrecruzados e os acendermos no cimo de um monte, aquele fogo será visto de noite por todos os habitantes do vale e resplandecerá como uma estrela caída na terra; mas se dispusermos os nossos corações em unidade, amando-nos como ele nos amou, teremos o próprio Fogo, o Amor entre nós, e poderemos ser instrumentos de Deus para muitas almas”.
Deus, portanto encontrado na Eucaristia, amado no irmão, obedecido nos superiores, Deus espiritualmente presente no meio de nós. E Deus, infinito, que habita pela graça no nosso coração finito. Era necessário ajudá-lo a reinar com a sua majestade, a destruir o nosso eu e a transformar-nos nele.
E, ainda, Deus nas Escrituras, colhido e meditado sob ação do Espírito e a orientação da Igreja: a Escritura, fonte inesgotável da qual hauriram e hão de haurir a vida, até o fim do mundo, todos aqueles que o querem amar; a Escritura, que também Maria Santíssima, a nossa mãe, meditava. Desejávamos imitar Maria, que ficou no mundo, e como ela tornar-nos portadores de Deus aos irmãos, portadores de Deus no mundo.

Deus, Deus, Deus em qualquer lugar e sempre, a preencher o vazio deixado pelo pecado e superabundantemente  plenificado pelo sangue de Jesus. Deus que é Amor: este Ideal é o objetivo e finalidade da nossa vida de focolarinos.                     

27 dezembro 2016

Este Deus desconhecido

            Quando o barquinho da vida faz água e a tempestade o ameaça, pronunciamos um nome que aflora aos lábios de quem sofre, até mesmo no derradeiro suspiro: mãe.
            Não denota sempre a mãe terrena; aliás, para a pessoa um pouco familiarizada com as coisas eternas, significa Maria.
            Isto é tão real que, freqüentemente, “mãe” é o grito dos corações de Deus nos momentos da provação. “Mãe”!
            Eis aqui o segundo milagre de amor, depois da redenção: um Deus encarnado e uma Mãe para todos.
            Nela, toda a esperança para o cristão.
           
Muitas vezes ocorre-nos perguntar: como fez Maria para viver na terra, sem perder, nas longas agonias do seu coração traspassado, chamar uma,  Mãe? E o enxerto direto de seu espírito com Deus mostra o esplendor único, a grandeza, a singularidade daquela que é “elevada mais do que criatura”. Deus – sem dúvida – como para nós, e bem mais, foi o consolo do seu coração.
             É possível que ela amasse alguém que lhe configurasse com mais propriedade – como para nós ela mesma, Maria – a identificação com o amor? Imagino que algo parecido e mais, infinitamente mais, do que encontramos em Maria, tenha ela – em sua labuta terrena a serviço do Pai, ocupando-se do filho - encontrado repouso e refrigério, força e audácia, capacidade de viver, quando outras mortes a teriam esmagado, n’Aquela que sustentou a Igreja em sua época e em toda as épocas: o Espírito Santo.
             O Espírito Santo, este Deus desconhecido, que, em nossa prestação de contas final, perceberemos, com infinito pesar, não termos talvez suficientemente amado, e venerado, e agradecido.

            Ele, a alma do corpo místico de Cristo, a firmeza dos mártires de todos os tempos, a fluência das águas vivas de todo sábio, a luz dos enviados de Deus, a certeza dos papas, o mestre dos bispos, o amigo dos ministros, o perfume das virgens.

Ele conviveu com a imaculada encontrando as suas delícias em plasmar, escondido,  a flor das flores, e Maria, n’Ele e por Ele, elevou o anseio traduzido pelo coração humano com o doce termo “Mãe” à altura mesma de Deus.

26 dezembro 2016

A palavra

Hoje gostaríamos de lhes falar sobre a Palavra de Deus.
“Compreendemos que o mundo tem necessidade de uma terapia de Evangelho. Somente a Boa Nova pode devolver-lhe a vida que lhe falta. E é por isso que vivemos a Palavra de Vida... é por isso que a encarnamos em nós, a ponto de nos tornarmos palavras vivas...”
Assim expressa Chiara Lubich a intuição fundamental que levou os membros do então nascente Movimento dos Focolares a escolher uma frase do Evangelho, comentá-la e vivê-la durante um determinado tempo. Esta prática permaneceu como uma constante e um alicerce da vida dos membros do Movimento.
Não se trata de refletir sobre uma palavra do Evangelho, apenas, e nem mesmo de medita-la, ms, sim de passar à ação, de pô-la em prática em todas as circunstâncias da vida quotidiana, com a convicção de que as palavras de Jesus são “espírito e vida” e uma única palavra do Evangelho posta em prática, pode tornar-se o ponto de partida para a reevangelização de uma vida inteira.
Chiara exprime essa certeza, dizendo: “Bastam umas poucas letras e algumas regras gramaticais para se saber ler e escrever; entretanto, quem não as conhece permanece analfabeto a vida toda. Da mesma forma, as poucas frases do Evangelho são suficientes pra formar, dentro de nós, o Cristo”.
E foi assim que a “palavra de vida” com seu comentário foi recopiada, mimeografada, impressa, mês após mês, a fim de que cada membro do Movimento, cada pessoa que desejasse vivê-la pudesse tê-la à mão, na bolsa, na mesa de trabalho, à cabeceira da cama – em qualquer lugar que lhe parecesse útil, para poder lembrar-se dela, impregnar-se dela, para que vivê-la se tornasse quase um reflexo.
Assim, são hoje distribuídos e vividos no mundo milhares de exemplares da Palavra de Vida.
A expressão “palavra de vida” é tirada de são Paulo, quando diz: “Vós sois portadores da Palavra de Vida” (cf Fl 2,16)
Outro traço característico dos membros do Movimento é o comunicarem uns aos outros a vida suscitada pela palavra. Da mesma maneira que os cientistas, tendo experimentado uma hipótese em laboratório, comunicam uns aos outros os resultados, a fim de contribuir para o progresso da ciência, assim também os que põem em prática a “palavra de vida” compartilham as “experiências” que realizaram ao vivê-la. Não se trata de divulgar sua vida, de comprazer-se com o êxito alcançado, mas de fazer com que outros participem da mesma luz.
Aliás, as experiências assim comunicadas têm seus traços característicos: são circunscritas no tempo, como uma breve história em que Deus atua e se revela. São como um estímulo dirigido a cada um.
Elas mostram que a vida não se divide: ela se desenvolve nas pequenas ações, tanto quanto nas grandes, animando a todos, desde o deputado até à mãe de família, conservando sua originalidade e sua força.
Leonardo nos conta, por exemplo, uma sua experiência sobre a Palavra de vida:
“Indo para a cidade percebo que estou com pressa. Não sei o porque, mas arrastado pelo trânsito intenso nas avenidas, me comportava como todos que recusam em dar a precedência. Tenho a fisionomia tensa. Num certo momento, me lembro da Palavra de vida. Então, em meio às filas de carros, me descontraio, sorrio a uma pessoa que se volta para mim, dou a precedência a um outro, acelero menos na partida, e aos poucos me sinto mais eu mesmo, mais em Deus, calmo, sereno. O tempo já não me oprime e consigo viver o momento presente com intensidade.”
Assim também Marlene:
«Nestes dias minha cunhada estava internada no hospital e algumas vezes fui visitá-la.  No mesmo quarto havia uma velhinha, à qual ninguém dava ouvidos. Numa das primeiras vezes que fui ao hospital, ela começou a chamar-me. Queria ir atendê-la, mas todos, também a minha cunhada, procuravam dissuadir-me: "Não dê importância. É uma velha meio louca e faz assim o dia inteiro".
Estava para me sentar um pouco amedrontada, mas depois lembrei-me da Palavra de vida do mês, onde Jesus dizia: “Tudo aquilo que fizeres ao menor dos meus, a mim o fizeste”. Era como se uma voz me dissesse: "Vai e faz aquilo que te é pedido". Levantei-me, aproximei-me da velhinha superando uma certa repugnância porque estava com as mãos sujas. Faço aquilo que me pede e lhe trago uma bacia com água para que possa lavar as mãos. Depois de ter se lavado, ela tocou nos meus braços e me disse: "Obrigada. Você lavou as mãos de Jesus".
Fiquei surpresa com as suas palavras, mas experimentei uma grande alegria e a confirmação da certeza de que Jesus está presente em cada homem.”
Queremos concluir com uma exortação de Chiara que nos ajudará a viver a Palavra durante este mês:
“Nós vivemos, umas após outras, numerosas palavras da Sagrada Escritura, de tal forma que elas permanecem em nós como um patrimônio indelével. Nossa missão é viver a palavra no momento presente e todos nós podemos vivê-la, seja qual for a nossa vocação, idade, sexo, condição, porque Jesus é a luz para todos os homens deste mundo. Com este meio tão simples, podemos evangelizar nossas almas e, com elas, o mundo...
Sejamos Evangelhos vivos, palavras vividas, outros Jesus. Assim o amaremos verdadeiramente e imitaremos Maria, a mãe da Luz, do Verbo, a Palavra viva,
Não temos outro livro que não seja o Evangelho, nem outra ciência, nem outra arte. É nele que está a vida! E aquele que a encontrar, não morrerá.”


25 dezembro 2016

Um Natal perene

Dezembro de 1955  

Caríssimos, 

impelidos por diversas circunstâncias, tivemos a ideia de viver todo mês uma Palavra de Vida. Pareceu-nos que esta prática, que desejamos que seja o mais regular possível e gostaríamos que empenhasse seriamente a nossa vontade, é sugerida também pela próxima festividade que todos os cristãos aguardam com alegria: o Natal. Nesta festa tão importante, queremos confirmar a nossa fidelidade a Deus, oferecendo algo concreto. E nada nos parece mais do seu agrado do que lhe oferecer a nossa alma de modo totalitário, para que Ele imprima nela a Sua imagem e a Sua fisionomia, para que imprima nela a Sua vida. Jesus, como demonstra o Evangelho, tem um modo de raciocinar, de amar, de querer especificamente Seu, único, e tão superior ao nosso modo de viver, também nosso, como cristãos, que em todos os tempos Ele deixará que se extraia do Evangelho "algo" que servirá para a humanidade daquela época, e de século em século esse "algo" vai parecer tão novo e revolucionário que teremos a impressão de que antes quase foi ignorado. Queremos adotar este modo de viver de Jesus. E nada parece mais oportuno para atingir o objetivo do que, de vez em quando, enxaguar a nossa alma no Evangelho. A consequência é que cada vez mais vamos nos parecer com Jesus. E qual é o modo mais esplêndido e concreto para festejar o Natal do que fazê-lo renascer em nós, em benefício da humanidade? Será um Natal perene o ano todo e além. Estamos certos de que Deus vai ficar contente com o nosso esforço e ficamos felizes em pensar que em meio a tantas trevas, que obscurece o mundo, em meio a tanta confusão e alucinação, produzida por falsas ideologias que enganam os homens e ameaçam triturar inclusive porções do Corpo Místico, nada poderá ser mais eficaz do que levar a luz evangélica viva em nós e ao nosso redor. Se Deus falou em Jesus, devemos ter fé de que aquelas Palavras contêm o fogo por Ele mencionado e o explosivo divino para vencer o mundo. [...]