27 abril 2010

Escutatória

Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.
Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.
E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio.
A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada.
Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

21 fevereiro 2010

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

14 fevereiro 2010

A PALMEIRA

COMO É LINDA e verdejante
Esta palmeira gigante
Que se eleva sobre o monte!
Como seus galhos frondosos
S’elevam tão majestosos
Quase a tocar no horizonte!
Ó palmeira, eu te saúdo,
Ó tronco valente e mudo,
Da natureza expressão!
Aqui te venho ofertar
Triste canto, que soltar
Vai meu triste coração.
Sim, bem triste, que pendida
Tenho a fronte amortecida,
Do pesar acabrunhada!
Sofro os rigores da sorte,
Das desgraças a mais forte
Nesta vida amargurada!
Como tu amas a terra
Que tua raiz encerra,
Com profunda discrição;
Também amei da donzela
Sua imagem meiga e bela,
Que alentava o coração.
Como ao brilho purpurino
Do crepúsc’lo matutino
Da manhã o doce albor;
Também amei com loucura
Ess’alma toda ternura
Dei-lhe todo o meu amor!
Amei!... mas negra traição
Perverteu o coração
Dessa imagem da candura!
Sofri então dor cruel,
Sorvi da desgraça o fel,
Sorvi tragos d’amargura!
......................................
Adeus, palmeira! ao cantor
Guarda o segredo de amor;
Sim, cala os segredos meus!
Não reveles o meu canto
Esconde em ti o meu pranto
Adeus, ó palmeira!... adeus!.

Machado de Assis - Poesias Esquecidas

31 janeiro 2010

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

22 janeiro 2010

O Guardião dos Livros

Ai estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,
A exata música e as exatas palavras,
Os sessenta e quatro hexagramas,
Os ritos que são a única sabedoria
Que outorga o Firmamento aos homens,
O decoro daquele imperador
Cuja serenidade foi refletida pelo mundo, seu espelho,
De sorte que os campos davam seus frutos
E as torrentes respeitavam suas margens,
O unicórnio ferido que regressa para marcar o fim,
As secretas leis eternas,
O concerto do orbe;
Essas coisas ou sua memória estão nos livros
Que custodio na torre.
Os tártaros vieram do Norte
em crinados potros pequenos;
Aniquilaram os exércitos
Que o Filho do Céu mandou para castigar sua impiedade,
Ergueram pirâmides de fogo e cortaram gargantas,
Mataram o perverso e o justo,
Mataram o escravo acorrentado que vigia a porta,
Usaram e esqueceram as mulheres
E seguiram para o Sul,
Inocentes como animais de presa,
Cruéis como facas.
Na aurora dúbia
O pai de meu pai salvou os livros.
Aqui estão na torre onde jazo,
Recordando os dias que foram de outros,
Os alheios e antigos.
Em meus olhos não há dias. As prateleiras
Estão muito altas e não as alcançam meus anos.
Léguas de pó e sonho cercam a torre.
Por que enganar-me?
A verdade é que nunca soube ler,
Mas me consolo pensando
Que o imaginado e o passado já são o mesmo
Para um homem que foi
E que contempla o que foi a cidade
E agora volta a se;. o deserto.
Que me impede sonhar que alguma vez
Decifrei a sabedoria
E desenhei com aplicada mão os símbolos?
Meu nome é Hsiang. Sou o que custodia os livros,
Que talvez sejam os últimos,
Porque nada sabemos do Império
E do Filho do Céu.
Aí estão nas altas estantes,
A um tempo próximos e distantes;
Secretos e visíveis como os astros.
Aí estão os jardins, os templos.

in Elogio da Sombra
Tradução Carlos Nejar e Alfredo Jacques

18 janeiro 2010

Haiti

Haiti

Não justifica os meios nem os momentos
Solida qualquer estrutura se desfaz.
A natureza brilha, mas também apaga.
Um sorriso que acredita, em uma lágrima que se faz.
Sonhos que não tem princípio.
Fé que se abala.
Rumo sem direção, um único som......
Choro, barulho, socorro.

Cadê meu irmão???

Criticas porque nessa hora! Que horas?
Não existe tempo muito menos dia a única coisa que vemos são pessoas estendidas.
Sem respiração, sem pulsação
Por favor, aonde esta meu irmão???

Ninguém localiza, não existe rua nem esquina apenas nada sobre nada.
Não justifica não nos cabe nenhuma critica.

Edson Rufo
Escritor – Terapeuta
Consultor de Qualidade de Vida
e Saúde Empresarial

17 janeiro 2010

Haiti - Urgente.

Urgência! É com esse sentimento que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas Brasileira, organismo vinculado a CNBB, está lançando uma Campanha de ajuda às vítimas do terremoto que atingiu o país caribenho, na noite do dia 12, vitimando milhares de pessoas, dentre elas a fundadora da Pastoral da Criança, Drª Zilda Arns.Diante das consequências desta tragédia, a CNBB, em conjunto com a Cáritas Brasileira, lança a Campanha SOS HAITI em socorro à população atingida pelo terremoto.Com esta campanha, a Igreja pretende fazer um apelo a todas as comunidades, paróquias, dioceses e a sociedade em geral para que organizem coletas em favor do povo haitiano, sugerindo que o dia 24 de janeiro, domingo, seja dedicado a orações pelas vítimas, reflexões e coletas em dinheiro.O resultado da campanha brasileira SOS HAITI se integra a campanha mundial promovida pela Caritas Internacionalis em resposta ao chamado do papa Bento XVI para a solidariedade da Igreja ao povo haitiano.As doações em dinheiro podem ser depositadas nas contas bancárias abertas exclusivamente para a campanha e serão destinadas às ações de socorro imediato, reconstrução e recuperação das condições de vida do povo haitiano.“Tanto mais urgente se apresenta agora o desafio da solidariedade, para um país que já vivia em condições de extrema precariedade. O apelo precisa ser respondido, sobretudo pelo Brasil, em vista de duas vinculações especiais que neste episódio ligam nosso país com o Haiti, primeiro é a presença do contingente do Exército brasileiro, segundo é o falecimento da doutora Zilda Arns”, foi o que expressou, em artigo enviado a CNBB, dom Demétrio Valentine, bispo de Jales (SP), a respeito da urgência em ajudar o povo haitiano.
As contas para depósito são:
Banco Bradesco, Agência: 0606 Conta Corrente: 70.000-2;
Caixa Econômica Federal OP: 003, Agência: 1041 Conta Corrente: 1132-1; ou Banco do Brasil, Agência: 3475-4 Conta Corrente: 23.969-0
Mais informações acesse o site da Cáritas Brasileira, www.caritas.org.br ou ligue (61) 3214-5400(61) 3214-5400.

Informações coletadas no site da CNBB (http://www.cnbb.org.br/site/imprensa/noticias/1250-igreja-no-brasil-lanca-campanha-sos-haiti-para-ajudar-os-necessitados-do-terremoto-)

14 dezembro 2009

Martin Luther King


"Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele."


Luther King foi um líder negro pacifista e pastor norte-americano (1929-1968). Nasceu em Atlanta, na Georgia e formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Sua primeira função foi a de pastor em 1954 e no ano seguinte liderou um boicote contra a discriminação racial que durou 381 dias. Sua filosofia de não-violência é baseada em Gandhi e nos princípios cristãos. Em 1960 conseguiu liberar aos negros o acesso aos lugares públicos. Em Washington dirigiu uma Marcha com 250 mil pessoas e proferiu um discurso contando seu sonho de ver os brancos e negros juntos. Desta Marcha resultou a Lei dos Direitos Civis (1964) e a Lei dos direitos de Voto (1965). Em 1968 ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Morreu assassinado em Memphis por um homem branco.

Aprendemos a voar como pássaros e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos.

A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio.

Sonho com o dia em que a justiça correrá como a água e a retidão, como um caudaloso rio. Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos vivam em uma nação onde não sejam julgados pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter.

Nossa geração não lamenta tanto os crimes dos perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos.

É melhor tentar e falhar que ocupar-se em ver a vida passar. É melhor tentar ainda que em vão, que nada fazer.

Eu prefiro caminhar na chuva a, em dias tristes, me esconder em casa. Prefiro ser feliz, embora louco, a viver em conformidade.

Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem anunciar a aurora de uma grande realização.

Mesmo se eu soubesse que amanhã o mundo se partiria em pedaços, eu ainda plantaria a minha macieira.

O ódio paralisa a vida; o amor a desata. O ódio confunde a vida; o amor a harmoniza. O ódio escurece a vida; o amor a ilumina. O amor é a única força capaz de transformar um inimigo num amigo.

O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício.

Nossa eterna mensagem de esperança é que a aurora chegará.

Trechos do famoso discurso pronunciado por Martin Luther King pouco antes de ser assassinado

16 novembro 2009

17 outubro 2009

Streets of Philadelphia (Ruas da Filadélfia)

I was bruised and battered
Eu estava machucado e surrado

And I couldn't tell what I felt
E não conseguiria dizer o que sentia

I was unrecognizable to myself
Eu estava irreconhecível para mim mesmo

Saw my reflection in a window
Vi meu reflexo numa janela

I didn't know my own face
Eu não conheci meu próprio rosto

Oh brother are you gonna leave me wasting away
Irmão, você vai me abandonar definhando

On the streets of Philadelphia
Nas ruas da Filadélfia?

I walked the avenue till my legs felt like stone
Eu caminhei pela avenida até que minhas pernas pareciam pedra

I heard the voices of friends vanished and gone
Eu ouvi as vozes de amigos desaparecidos e mortos...

At night I could hear the blood in my veins
À noite eu podia ouvir o sangue em minhas veias

Just as black and whispering as the rain
Exatamente tão escuro e sussurrante como a chuva

On the streets of Philadelphia
Nas ruas da Filadélfia

Ain't no angel gonna greet me
Nenhum anjo vai me acolher?

It's just you and I my friend
É apenas você e eu, meu amigo

And my clothes don't fit me no more
E minhas roupas não me servem mais

I walked a thousand miles just to slip this skin
Eu caminhei mil milhas apenas para livrar-me dessa pele

The night has fallen, I'm lyin' awake
A noite caiu, estou deitado [mas] acordado

I can feel myself fading away
Eu posso sentir a mim mesmo desfalecendo

On the streets of Philadelphia
Nas ruas da Filadélfia?

14 setembro 2009

Nos Bosques, Perdido

Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos labios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.
Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.
Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.
Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.
Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela...

12 setembro 2009

Tenho tanto a fazer

Tenho tanto a fazer -
O tempo escapa entre meus dedos.
Tenho tanto a fazer -
Não sei pra onde ir.
Tenho tanto a fazer -
Mas minhas passadas são pequenas.
O que quero do mundo?
O que espero de mim?
Não sei se grito ou espero;
Não sei se vou ou se fico.
Tenho tanto a fazer -
Mas meus medos impedem.
Se com uma caminhada vacilante
Eu ando pouco, correndo posso fazer... o "tanto a fazer"...
Quando relembro meu passado, percebo que muito eu caminhei.
Cheguei aonde não pensei; fui aonde não imaginei.
Se ganhei ou perdi, com certeza eu ganhei.
Se sonhei eu criei e se fiz eu ganhei.
Não posso parar:
Tenho tanto a fazer -
O tempo escapa entre meus dedos.

23 agosto 2009

Poema da Solidão

Espero a hora da tua chegada
Mas o relógio bates horas erradas
Deixo rolar uma lágrima incerta
Na certeza da tua ausência
Chamo por ti na escuridão
Mas os meus gritos são mudos.

Entrego-me a ti
Mas sofro um abandono imcompreensível
Sonho com um sorriso
Que outrora me fez feliz
Anseio por um olhar
Que no passado me dizia "Amo-te" em cada pestanejar
Desejo o teu toque
Que me elevava ao limite da vida e da morte
Mas tu não vens...

Olho o horizonte em busca de um sinal
De uma sombra
Uma rasto
Algo que te pertença
Mas depressa entendo
Que não virás
Pois o coração que antes me pertencia
Partiu
E já não volta atrás...

E no mais pesado desespero
Desejo
Não ter de te dedicar este poema...

Baila comigo

Dance comigo...

04 junho 2009

SONETO LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.

28 dezembro 2008

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
—Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
—Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai
—Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
—De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicíus de Morais

12 setembro 2008

A QUATRO VOZES

Doralice (Dora), Jurema, Jussara e Thatiana formaram o grupo em 1994 como quarteto de vozes. Mas seu forte instinto e excelência musical projetaram o grupo para os céus da arte – conseguiram um grau elevado de interação entre seus membros que os resultados se traduziram em uma sonoridade ímpar. Jussara, estuda canto há 15 anos, toca violão e sua especialidade é interpretação musical. Thatiana estudou percussão durante 2 anos e descobriu seu talento para o canto integrando-se ao grupo. Estuda canto e teoria musical. Jurema também estuda canto ha 10 anos, toca violão, estuda teoria musical, é uma das compositoras do grupo e agora sua praia também é contrabaixo acústico. Dora compõe, toca violão, fez piano, canto e teoria musical. Todas se consideram um grupo democrático por que não possuem uma Band Leader! Elas opinam e participam igualmente na busca da qualidade musical e ainda por cima, a voz principal migra entre as quatro de forma que todas mostrem suas qualidades individuais e tragam o melhor ao grupo vocal.

YOLANDA



PARA OUVIR, DESLIQUE O SOM NA COLUNA AO LADO EM "OUÇA"

Boi do Pindaré - A 4 Vozes



PARA OUVIR, DESLIQUE O SOM NA COLUNA AO LADO EM "OUÇA"

CONTO DE AREIA



Para ouvir, deslique o som ao lado no "OUÇA".

12 agosto 2008

Caro Babbo - Marco Masini

Uma das músicas italianas que eu mais gosto...
Para ouvir, deslique o som ao lado no "OUÇA".

06 agosto 2008

Querer

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

Pablo Neruda

22 julho 2008

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

27 junho 2008

A RESSURREIÇÃO DE ROMA

Escrito em 29 de outubro de 1949
"Se olho para esta Roma assim como é, sinto o meu Ideal distante, como distantes são os tempos em que os grandes santos e os grandes mártires iluminavam à sua volta, com a Luz eterna, até as paredes destes monumentos que ainda se levantam para testemunhar o amor que unia os primeiros cristãos. Em gritante contraste, o mundo com sua sordidez e vaidades domina agora Roma nas ruas e, pior ainda, nos recessos dos lares, onde mora a ira com todo o pecado e a agitação. Diria que o meu Ideal é uma utopia se não fixasse o pensamento Nele que também viu um mundo igual a este, que o cercava e que, no ponto culminante de sua vida, pareceu ser arrastado por tudo aquilo, vencido pelo mal. Ele também olhava para toda esta multidão a quem amava como a si mesmo, Ele, que a criara para si e gostaria de ter lançado os elos que deveriam uni-la novamente a Ele, como filhos ao Pai, e unir irmão com irmão. Ele descera para recompor a família, para fazer de todos “um”. Mas, ao contrário, apesar de suas palavras de Fogo e de Verdade – que queimavam o matagal das vaidades que sufoca o que de Eterno existe no homem e passa entre os homens -, o povo, a grande parte do povo, embora compreendendo, não queria entender, e continuava com os olhos apagados, pois a alma estava obscurecida. Tudo isso porque Ele os criara livres. Tendo descido do Céu à terra, ele podia ressuscitar a todos apenas com um olhar. Mas devia deixar para eles – criados à imagem de Deus -, o gáudio da livre conquista do Céu. Estava em jogo a Eternidade e, por toda a eternidade, eles poderiam viver como filhos de Deus, como Deus, geradores (por participação da Onipotência) da própria felicidade. Ele olhava o mundo como o vejo eu, mas não duvidava. Insatisfeito e triste, por tudo aquilo que caminhava a passos largos para a ruína, ao rezar à noite, voltava o olhar para o Céu lá no alto e o Céu dentro de si, onde a Trindade vivia e era o verdadeiro Ser, o Tudo concreto; enquanto, lá fora, perambulava pelas ruas a nulidade que passa. Também eu, para não me separar do Eterno, do Incriado, que é raiz para toda a criação e, portanto, a Vida do tudo, para acreditar na vitória final da Luz sobre as trevas, faço como ele. Passo por Roma e não quero vê-la. Olho o mundo que está dentro de mim e me apego àquilo que tem essência e valor. Faço de mim uma coisa só com a Trindade que repousa em minha alma, iluminando-a com eterna Luz, cumulando-a de todo o Céu povoado de santos e de anjos que, não sujeitos a espaço e tempo, podem se recolher com os Três em unidade de amor no meu pequeno ser. Tomo contato com o Fogo que, invadindo toda a minha humanidade dada por Deus, faz de mim outro Cristo, outro homem-Deus por participação, de modo que o meu humano se funde com o divino e os meus olhos não mais ficam apagados, mas, através da pupila, vazio sobre a alma, por onde passa toda a Luz que vem de dentro (quando deixo Deus viver em mim), olho o mundo e as coisas; contudo, já não sou mais eu que olho, é Cristo em mim que olha, e vê de modo novo, cegos que devemos iluminar, mudos que devemos fazer que falem e aleijados que devemos fazer andar. Cegos para a visão de Deus dentro e fora deles. Mudos para a Palavra de Deus que também fala neles, e poderia ser transmitida por eles aos irmãos, e despertá-los para a Verdade. Aleijados, paralisados, desconhecedores da vontade divina que, do fundo do coração, os instiga para o moto eterno que é o eterno Amor em que nos incendiamos, transmitindo o Fogo. De modo que, olhando novamente para fora, vejo a humanidade com os olhos de Deus que em tudo crê porque é Amor. Vejo e descubro a minha Luz nos outros: a Realidade verdadeira de mim, o meu verdadeiro eu nos outros (talvez soterrado ou secretamente camuflado por vergonha) e, tendo reencontrado a mim mesma, uno-me a mim, ressuscitando-me - Amor que é Vida - no irmão. Ressuscitando nele Jesus, outro Cristo, outro homem-Deus, manifestação da bondade do Pai aqui embaixo, Olho de Deus sobre a humanidade. Assim continuo no irmão o Cristo em mim e componho uma célula viva e completa do Corpo Místico de Cristo, célula viva, fogueira de Deus, que contém o Fogo a ser transmitido e, com ele, a Luz. É Deus que de dois faz um, pondo-se como terceiro, relação entre eles: Jesus entre nós. Assim, o amor circula e leva, naturalmente, (pela lei de comunhão nele congênita), qual rio de fogo, toda e qualquer coisa que os dois possuem, para tornar comuns os bens do espírito e os da matéria. Isso é testemunho concreto e exterior de um amor unitivo, o verdadeiro amor: o da Trindade. Então, realmente, Cristo inteiro revive em ambos, em cada um, e entre nós. Ele, homem-Deus, com as mais diferentes manifestações humanas impregnadas de divino, postas a serviço da finalidade eterna: Deus com o interesse do Reino e - senhor de tudo - dispensador de todo bem a todos os filhos, como Pai sem preferências".

AMOR E AMIZADE

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.
William Shakespeare

04 abril 2008

A ARTE DE SER FELIZ (Cecília Meireles)

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.